A condição humana: uma metáfora

novembro 22, 2012

Anthony Burgess – o autor do livro “Laranja Mecânica”, eternizado pelo impactante filme de Stanley Kubrick que leva o mesmo nome – procura explicar as razões de seu livro no ensaio “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, escrito no ano de 1973. E ele começa muito bem:

“BURGESS: Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpinteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismo com palavras, como se estas fossem bolas coloridas.”

A seguir o autor nos relata que, eventualmente, o romancista é chamado para dar a sua opinião sobre “coisas sérias” ao seu público. A partir daí Burgess descarrega um grande volume de referências oriundas das mais diversas disciplinas – passando pela religião, filosofia, psicologia, sociologia e a política – na tentativa de coser uma veste lógica para o seu brilhante “Clockwork Orange”. Dentre essa miríade de argumentos o autor faz menção a dois de meus romances prediletos: “1984”, de George Orwell e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Parece-me mesmo que o seu anseio era aquele de compor a partir destes fragmentos um mosaico ainda mais grandioso, que elevasse o seu livro à altura de espécie de Cabala; e o título do ensaio reforça essa ideia: “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, wow!

Anthony Burgess não foi o primeiro e nem será o último caçador do Graal Sagrado ou da Equação de Tudo pela via da racionalidade. E quantos são os exemplos nessa segunda década do terceiro milênio! Serão os neurocientistas, os físicos e os geneticistas astronautas?

Outro caso de estudo, este bastante recente: O psicologista e PhD Bruce Hood, especialista em neurociência, acaba de lançar seu livro “The Self Illusion: How the Social Brain Creates Identity”. Vejamos o que nos diz a sinopse da obra:

“Most of us believe that we are an independent, coherent self – an individual inside our head who thinks, watches, wonders, dreams, and makes plans for the future. This sense of our self may seem incredibly real but a wealth of recent scientific evidence reveals that it is not what it seems – it is all an illusion.”

E numa de suas entrevistas, este autor relata-nos o seguinte:

“HOOD: I think Nietzsche’s nihilism and Woolf’s depression could have been reflections of their intuitive understanding that the richness of experience must be made up of a multitude of hidden processes and that the core self must be an illusion – and maybe that upset them. But I don’t think appreciating that the self is an illusion is a bad thing. In fact, I think it is inescapable. My critics often dismiss my position as too reductionist or too materialist. Well, if the human condition it is not materialist, then an alternative good explanation must be non-materialist. Show me good evidence for souls and spirits and then I will be forced to change my view. But so far there has been no reliable evidence for souls, ghosts or supernatural entities that inhabit bodies. They are conspicuous by their absence. In contrast, we know that if you alter the physical state of the brain through a head injury, dementia or drugs, each of these changes our self. Whether it is through damage, disease or debauchery, we know that the self must be the output of the material brain.”

“LEHRER: If the self is an illusion, then why does it exist? Why do we bother telling a story about ourselves?”

“HOOD: For the same reason that our brains create a highly abstracted version of the world around us. It is bad enough that our brain is metabolically hogging most of our energy requirements, but it does this to reduce the workload to act. That’s the original reason why the brain evolved in the first place – to plan and control movements and keep track of the environment. It’s why living creatures that do not act or navigate around their environments do not have brains. So the brain generates maps and models on which to base current and future behaviors. Now the value of a map or a model is the extent to which it provides the most relevant useful information without overburdening you with too much detail.”

“The same can be said for the self. Whether it is the ‘I’ of consciousness or the ‘me’ of personal identity, both are summaries of the complex information that feeds into our consciousness. The self is an efficient way of having experience and interacting with the world. For example, imagine you ask me whether I would prefer vanilla or chocolate ice cream? I know I would like chocolate ice cream. Don’t ask me why, I just know. When I answer with chocolate, I have the seemingly obvious experience that my self made the decision. However, when you think about it, my decision covers a vast multitude of hidden processes, past experiences and cultural influences that would take too long to consider individually. Each one of them fed into that decision.”

Bacana. Concordo quando ele diz que o valor de um modelo está na sua capacidade de prover boas respostas a partir de um número reduzido de variáveis de entrada. Isto é o mesmo que afirmar que a melhor solução para um problema é aquela tão sintética quanto possível e, por consequência, a mais simples. Agora, doutor Hood, isso leva por terra toda a sua argumentação posterior quanto à complexidade de sua preferência pelo sorvete de chocolate. E será realmente preciso, apenas por causa disso, aniquilar toda a singularidade do indivíduo, enquadrando-o num verdadeiro modus operandi comportamental? Não seria mais natural (e humano) entender simplesmente que os indivíduos têm necessidades, anseios, medos e interesses distintos? Enfim, será que ainda posso tomar o meu sorvete de baunilha?

Eu me chamo Jorge e sou um escritor pouco conhecido – muito diferente de Burgess, de Huxley ou de Orwell; os quais admiro imensamente – mas estou satisfeito com as minhas limitações, possibilidades de escolha e seus naturais desdobramentos. Mas não sou, definitivamente, um ponto na curva de um gráfico.

Apesar de enorme esforço científico e do inegável avanço tecnológico, parece-me que a razão começa a mostrar suas limitações para o tratamento de questões realmente profundas e essenciais à nossa natureza. Afinal, permanecem os antigos problemas sem uma solução determinística: De onde viemos? Para onde vamos? Quem somos nós? Qual o propósito da vida?

E para tudo isso, nada melhor que uma metáfora: Somos como aquela criatura indefesa que caminha na prancha, presa de um lado no convés do navio e com a outra extremidade livre em direção à imensidão azul. Há o pirata de um lado a impulsionar-nos para fora, com sua espada em punho. Ele é bom ou ele é mau? Podemos tecer analogias relacionando o pirata com o demônio e a imensidão azul com o paraíso. Mas será que isso está correto? Por que será que a grande maioria de nós não se decide por saltar da prancha logo de uma vez e continua suportando as agruras da vida?

A Teoria das Cordas surgiu da lida dos físicos contemporâneos com uma dessas questões difíceis de responder, obviamente no tocante aos fenômenos naturais básicos envolvendo matéria e energia. O arcabouço da teoria vem demonstrando sua validade científica, o que significa que atende o pressuposto determinístico. Entretanto afirmam muitos se tratar de um modelo bastante complexo para a realidade das partículas elementares, colocando-se a maneira de um conhecimento hermético.

“Os escritos herméticos são uma coleção de 18 obras Gregas, cujas principais são o Corpus Hermeticum e a Tábua de Esmeralda, as quais são tradicionalmente atribuídas a Hermes Trismegisto. Estes escritos contêm os aspectos teóricos e filosóficos do Hermetismo em seu aspecto teosófico. O período bizantino é marcado por outra coleção de obras herméticas, que também são relacionadas a Hermes Trismegisto, e contêm uma tradição hermética popular a qual é composta essencialmente por escritos relacionados à astrologia, magia e alquimia.”

Curiosamente parece que o ritmo de avanço das ciências puras esteja dando sinais claros de seu esgotamento na mesma medida em que as teorias contemporâneas vêm de encontro aos conhecimentos místicos ancestrais. A química, por exemplo, que há muito se diferenciou da alquimia, segue o seu caminho de retorno em direção a esta – graças a supramencionada Teoria das Cordas. Fato é que o conhecimento simbólico carrega grande poder de síntese, estando diretamente relacionado aos processos, ao fluxo dos fenômenos naturais, ao invés de propriamente às funções específicas. Esse tipo de simbolismo está na base de inúmeros avanços recentes da computação científica, por exemplo. E volta a ter mais valor a capacidade de abstração e de estabelecer conexões entre conceitos que o grande acúmulo de informações específicas – afinal, isso você já pode carregar num pen-drive!

Estes limites no avanço das ciências básicas são como assíntotas. Uma assíntota é um ponto de entrada de uma função contínua para o qual a saída tende ao infinito (ou a menos infinito). Relacionando muito simplificadamente este conceito matemático aos fenômenos físicos, podemos dizer que ultrapassar um ponto assintótico requer um dispêndio imenso de energia. E sabemos que os organismos complexos na natureza tendem ao comportamento de mínimo consumo energético – sendo caracterizados pela sua capacidade de manutenção em pontos de equilíbrio estáveis.

Eu não sou, definitivamente, um ponto na curva de um gráfico. Mas se eu fosse, estaria navegando numa cela – num ponto de mínimo – entre duas cristas de uma onda. Interessante esta denominação ao ponto de mínimo: a cela, que também é sinônimo de prisão, caracteriza o ponto de equilíbrio estável de uma função periódica; isto é, de uma onda.

O poeta é um artesão das metáforas. Prossigamos…

Já foi muito explorada nas artes a condição humana atrelada a esta nossa esfera celeste (ponto de mínima energia?), sobre a força da gravidade que nos prende a Terra; também sobre o corpo enquanto prisão da alma (e esta, por sua vez, seria a morada do espírito livre). É ancestral o anseio do homem de alçar vôo!

Talvez os nossos corpos estejam atrelados ao espaço-tempo numa configuração estável, à cela de uma dada freqüência de onda. Fato é que não atendemos a uma função específica (sequer conhecemos o sentido da vida!), mas nos desdobramos em múltiplas atividades (ou funções). Assemelhamo-nos muito mais aos processos, aos esquemas de fluxo da natureza: a massa e a energia traspassam-nos; são incessantes através dos nossos corpos os ciclos de alimentação e de excreção, de inspiração e de expiração, de sono e de vigília, de menstruação nas mulheres, de nascimento e de morte das nossas células – apenas para citar alguns desses fenômenos cíclicos, de natureza pulsante, vibratória. E, por fim, estamos nós mesmos inextricavelmente subjugados à falência de nossos próprios órgãos; sendo a exaustão do corpo físico inevitável num período da ordem de grandeza de um século.

Somos como aquela criatura indefesa que caminha na prancha, presa de um lado no convés do navio e com a outra extremidade livre em direção à imensidão azul. Há o pirata de um lado a impulsionar-nos para fora, com sua espada em punho. Ele é bom ou é mau? E afinal, por que será que a grande maioria de nós não se decide por saltar da prancha logo de uma vez e continua suportando as agruras da vida?

Talvez seja de pouca importância saber de onde viemos (tomar o navio, conquistar o mundo) ou para onde vamos (mergulhar na imensidão azul, morrer). Talvez este seja o indício de que o barato está exatamente em nos equilibrarmos sobre a prancha. Nessa viagem (nessa nossa freqüência) o bem e o mal servem de pano de fundo, representando polaridades opostas. Refletindo sobre o ser humano a luz de um processo, essa diferença de potencial gerada pelas polaridades opostas é de importância fundamental para a dinâmica, para os fluxos de massa e de energia, viabilizando o movimento.

Ei, alguém aí falou em movimento, em atividade, em estímulo, em “preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência”?

“Arte (do latim ars, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada as manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada a partir da percepção, das emoções e das ideias, com o objetivo de estimular as diferentes instâncias da consciência; dando um significado único e diferente para cada obra. A arte se vale para isso de uma grande variedade de meios e materiais, como a arquitetura, a escultura, a pintura, a escrita, a música, a dança, a fotografia, o teatro e o cinema.”

“Considera-se que no início da civilização a arte teria principalmente funções mágicas e rituais, mas ao longo dos séculos e das diferentes culturas tanto conceito como função mudaram de maneira importante, adquirindo componentes estéticos, sociológicos, lúdicos, religiosos, morais, experimentais, pedagógicos, mercantis, psicológicos, políticos e ornamentais, entre outros. O conceito de arte continua hoje em dia objeto de grandes debates, e permanece, a rigor, indefinido. A palavra também é usada para designar simplesmente uma habilidade ou talento especial, como a ‘arte médica’, a ‘arte da pesca’, et cetera, mas na bibliografia especializada designa geralmente atividades que têm características criativas e estéticas.”

Creio que decorre daí a minha predileção pela arte com relação às demais atividades de caráter objetivo. Isto não significa que eu menospreze a importância de todas as demais atividades humanas, principalmente àquelas que são essenciais à manutenção da vida. Simplesmente eu prefiro o sorvete de baunilha àquele de chocolate; e não venha você me dizer que não passo de mais um ponto na curva do seu gráfico!

“…” – os excertos entre aspas foram extraídos do inconsciente coletivo internético.

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