Sob o mesmo céu

agosto 10, 2012

Ele dizia que a cidade grande não passava de um amontoado de braços, de pernas, de passos apressados em incessante movimento por entre as vias de piche. Dentro das enormes caixas de concreto, acondicionados às mesas das repartições, repousavam os corpos, com os dedos indicadores de suas mãos direitas a clicarem frenéticos os mouses, os olhos fixos no monitor. E resultaria daí a suspensão temporária da vida.

Dentro das barcas – ao sabor das ondas – ou ainda no sacolejar de velhos ônibus enferrujados, a rotina do transporte para a manutenção da metrópole, como que o fluxo sanguíneo a oxigenar um gigante organismo, nesse nosso eterno ir e vir.

Ele me disse que a vida – a verdadeira vida – habita os interstícios desse complexo de concreto e piche. Ela reside nas fendas. No burburinho às portas estreitas do botequim; a gargalhada sincera no bate-papo dos camaradas cujos destinos se cruzam no coletivo; na algazarra das crianças, brincando inocentes na areia da praia em pleno horário de expediente.

Expurgou as suas dores, contou dos seus amores, alguns temores e outros sonhos. Tudo isso ele despejou em meus ouvidos num breve instante; desses raros, nos quais a vida mostra-se plena. E não recordo ao certo onde foi que nos falamos; se o sol estava a pino, ou se fazia noite escura como o breu. Importa que aquela ideia fez com que eu refletisse. Estou vivo.

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