Junto aos serenos

junho 14, 2012

Eu vi a menina com estranha bota,

levava numa das mãos espécie rara de flor,

que trazia cuidadosa, junto ao peito.

As cores de suas pétalas, do carpelo, estames,

até mesmo de suas sépalas eram vívidas, vibrantes.

Aquela menina era linda e não interessam,

em absoluto, as cores.

Mas as suas botas de plástico:

elas traziam asas delgadas e translúcidas,

uma partia da superfície canhestra à altura do tornozelo daquele mesmo pé,

outra deixava o plástico direito lá pelo maléolo do outro calçado.

Ah, eu amava aquela menina!

Com a mesma intensidade do meu amor pela vida.

Então eu vi:

um carrapato em cada uma daquelas asas alvas e longas das botas estranhas.

Eles eram ogros vistos assim: de perto.

Ao longe, entretanto,

não nos incomodavam.

Quando nos apercebemos,

sambávamos a um palpite infeliz de Noel,

e eles cravaram as suas esporas naquelas asas.

Subimos às alturas desconcertantes.

As pétalas

– já disse que não interessam as cores –

despedaçavam da flor deixando um rastro efêmero na trajetória do céu,

podia ser visto se alguém estivesse a perscrutar a noite.

E cheguei a pensar em devaneio meu,

não fosse pousarmos leves, úmidos,

junto aos serenos,

quando o dia amanheceu.

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3 Respostas to “Junto aos serenos”

  1. Amigo… o desenho de mangá e também a agilidade expressiva desse texto me fez lembrar de “death note”, um anime que eu tenho assistido bastante com o meu sobrinho mais velho de sete anos.
    Fiquei reparando nesse teu escrito… as descrições são tão voláteis, rápidas… Clarice talvez dissesse “passam por mim como um bólido…”, mas ainda assim, ainda com toda a agilidade poética e interna, existe uma intensidade que exorbita em sensbilidade e fascínio.
    Olha… esse texto poético pode muito bem ser o roteiro de um episódio de anime rsrsrs tem de tudo nele: personagens – o admirador, que toma o rumo de narrar o que se passa dentro dele através do que vê; e a admirada, a musa -; expressões que conseguem encontrar correspondências incríveis em imagens; e um final que é muito peculiar em animes: fica pairando a dúvida sublime entre sonho e realidade, enquanto alguma correspondência natural apresenta-se lá fora…

    Quanto à “não necessidade de cores”… puxa… isso é tão mágico porque… ao não existir um preenchimento único, a incrível possibilidade de vários se faz presente e encanta totalmente qualquer sentido meramente sensível.

    Amplexos!

  2. Oi, Jorge. Muito bacana o seu blog! Será esta a primeira de muitas visitas, preciso ler com mais vagar suas lavras. Meu abraço e meu obrigado pelo comment deixado no meu sítio. Um grande abraço.

  3. Grande poema, Jorge. Abraço.

    Isaac Bugarim

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