Papoula

novembro 22, 2011

 – um retrato da degradação humana

 O menino Jorge nasceu em berço abençoado de classe média alta (que é como se autodenominam os ricos quando querem passar desapercebidos), seus pais faziam as suas vontades e ele sempre teve a oportunidade de estudar num dos melhores colégios da cidade em que moravam. Era extrovertido e cobiçado pelas adolescentes da escola.

Jorge gostava especialmente de participar das reuniões de formatura, dava muitas ideias, e como era relativamente inteligente, chamava a atenção pela sua desenvoltura e presença de espírito. Jorge lia muito, especialmente economia e política, era atento ao que acontecia em sua comunidade, em sua cidade, em seu país.

Helena era sua colega de turma, estudaram juntos desde tenra idade. Helena era um pouco mais reservada, chamava a atenção pela sua beleza natural, longos cabelos louros, seus olhos azuis vibrantes e pelos seus doces modos; muito carinhosa com todos.

Como era natural, Helena sentia-se atraída pelos meninos da turma acima, eles eram mais desenvolvidos, já tinham pêlos no peito e se davam melhor no futsal. Mas era uma admiração reservada, porque Helena era um tanto romântica e sua mãe lhe dizia para ter cuidado com os assuntos do coração, nem todos os meninos são tão bonzinhos de perto como parecem ao longe – e ela sabia ouvir.

Helena e Jorge tornaram-se bons amigos. Jorge contava à Helena sobre as suas paqueras, ela ajudava-o dando dicas de como flertar com as meninas, vez por outra até fazia o papel de cupido, ajeitando os encontros ou apresentando-o a alguma colega. Helena e Jorge comemoraram muito quando Fernando finalmente se apercebeu dos encantos da menina e os dois começaram a namorar.

Quando formaram um grupo de teatro na escola, foi Helena quem convidou Jorge para tomar parte. Fizeram apresentações hilárias, divertidas, às vezes sarcásticas; enfim, foram tempos de sincera amizade e companheirismo. No último ano da escola Helena decidiu-se por prestar vestibular para arquitetura enquanto Jorge encantou-se com a ideia de estudar ciências sociais. Discutiam animadamente a respeito.

Àquela época, Helena seguia o seu namoro com Fernando; e Jorge tinha vários rolinhos, era como a letra da canção: de tanto brincar de médico, se tornara professor. Foi Jorge quem fez o discurso na noite de formatura e Helena quem recebeu a distinção pelas melhores notas da classe.

Cada um seguiu o seu caminho, mudaram de cidade para cursar a faculdade; com o passar do tempo, se falavam cada vez menos. Certa noite, Helena ligou em prantos para Jorge, contou o que Fernando havia feito e aquele ombro amigo soube ouvi-la e confortá-la. Mas como tudo na vida acaba, os laços de longa amizade foram se esfacelando, até que perderam definitivamente o contato.

Foi num fim de semana prolongado pelo feriado, na mesma cidade dos tempos de adolescência, uns três ou quatro anos depois, que ambos se reencontraram na Elektro Dance. Helena sentiu-se atraída por aquele corpo másculo, pujante, que fervia ao ritmo frenético da música, whiskey e energético. Quando chegou perto, tomou um susto ao perceber que se tratava de Jorge. A atração foi instantânea, e recíproca: não descolaram mais a noite toda. Helena pensava em como era doce o toque daquele menino enquanto se beijavam. Como é que não havia se dado conta disso? Quanto tempo desperdiçado!

Decidiram terminar a deliciosa noite num motel. Jorge não foi nada atencioso às preliminares: tirou a calcinha de Helena, botou-a de quatro, cuspiu em suas mãos, esparramou a saliva pastosa de bebida em seu pau duro e latejante, cravou-o todo dentro do cu de Helena de uma estocada só. Ela urrava de dor. Helena pedia: ‘pare Jorge, pare!’ mas ele parecia ensandecido. Segurava-a com força. Helena estava aos prantos e tinha uma péssima sensação quando aqueles ovos peludos se chocavam fortes contra a sua boceta, em movimentos rudes, descompassados. Não havia se sentido tão humilhada assim em toda a sua vida. E quando terminou com aquilo, Jorge não disse uma palavra sequer. Cada um botou suas próprias roupas, pegou o seu carro e foi embora para casa – nunca mais se falaram.

Na faculdade de ciências sociais, Jorge envolveu-se em negócios escusos com tal de Jacinto, que lhe soprava ideias estranhas dentre outras fumaças a sua cabeça. Nada ou muito pouco restou dessa fase obscura da vida dele. É certo que o sujeito era chegado às garrafas, mas tudo veio do pó e ao pó retornou: as dunas, as estrelas, as nuvens; não é tudo constituído da mesma essência etérea das flores? Daquela mesma da papoula?

Ao final da faculdade Jorge mudou de time. Não, você não entendeu errado: ele virou viado; dessas bichas que falam fino, que exigem os seus direitos, dadas às afetações e jactâncias. Obcecado por forjar-se uma celebridade. Afinal, foi essa a leitura que Jorge fez dos valores que lia nos jornais: competição, ser melhor que o outro, aparecer mais, diferenciar-se a qualquer custo, pavão esvoaçante. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Distorção de valores, um ser politicamente correto, sua palavra de ordem é ‘bullying’, outras frases de efeito fora do contexto. Quando, em verdade, a pequena esfera celeste, já comportando sete bilhões de cabeças animais, daquelas da pior espécie, vem aceitando, de bom grado, muito mais do que deveria.

Mas não percamos o foco, voltemos nossa atenção aos desdobramentos desse novelo que representa a vida pictórica desta personagem, que bem poderia ser eu (ou, quiçá, poderia ser você). Por melindres do destino, a essa altura, Jorge já não era assim tão popular e, nem sempre, bem quisto; e não foi ele o orador da turma na formatura da faculdade de ciências sociais.

Jorge era tenaz e não desistiria assim tão facilmente – todos bem o sabemos. Encerrado em seu mundo interior e tramando se tornar um verdadeiro ‘big brother’, ele maquinou com seus botões a melhor forma de valer-se de suas habilidades de comunicação. Entrou num portal de literatura e começou a postar desenfreadamente os seus textos e vídeos que varriam olhares diferenciados sobre todo o espectro do conhecimento humano: desde as artes marciais, passando pela poesia, a música, o cinema, a política, a economia, o humor, a religião, ciências naturais e tendências culinárias.

O cara não era fraco não! Para maximizar o seu efeito midiático, passou a lançar mão de heterônimos virtuais, cada um deles com personalidade distinta, estilo diferenciado e outras especificidades de interação. Jorge passou a comentar e a ‘curtir’ as suas próprias postagens, valendo-se duma miríade de heterônimos virtuais. Estes assumiam os prenomes de homens ou mulheres, dependendo do caso, com os seus respectivos ‘avatares’ e perfis: Jorge (o próprio), Roberto, Vânia, Alex, Lílian, Hugo, Socorro, André, Alícia, Diogo, Jorge (o xará), Sandra, Milton e a lista segue por aí afora…

Estava feliz; Jorge passava os seus dias e noites muito ocupado; cuidando de ‘postar’, ‘curtir’ e comentar a sua própria e extensa produção; mas era, enfim, um ser humano realizado (a bem da verdade, vários deles). E, isso sim, era o sucesso!

Até que, certo dia, sofreu um surto psicótico. Jorge já não dava conta de alimentar a fornalha de seu Ego. Percebeu que, apesar de estar por trás de tudo o que rolava de ‘bacana’ nas redes sociais, só era conhecido de si mesmo. Aquela súbita percepção foi demais para ele; espécie de implosão ou ‘zip’ de sua personalidade multifacetada.

Jorge foi internado num manicômio e lá permaneceu por oito meses. Um dia vestia-se de Jorge (o próprio), outro dia de Alícia, a noite era Milton e a lista segue por aí afora… Uns dizem que morreu de desgosto (outros de tanto dar a bunda) e foi enterrado num grande jazigo, do tamanho enorme de seu Ego.

Há quem pense que a história termina aí, mas se engana: Oito meses se passaram quando do solo fértil de seus despojos (de seus dejetos) germinou uma pequena planta da família das Papaveraceae. Foi preciso, então, que outros oito meses transcorressem. Desabrochou, enfim, pequena e bela flor vermelha próxima ao epitáfio de Jorge. E apenas naquele dia tive a curiosidade de ler as palavras grafadas ao frio da pedra:

A Merda Abunda

E Não É de Hoje.

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