Ao alvorecer

maio 24, 2011

O sol reflete-se numa miríade de gotas d’água recém espalhadas pelo vidro translúcido do box. A manhã e o canto dos pássaros anunciam a chegada do novo dia. Renascidas as esperanças e as possibilidades de caminharmos pela avenida da virtude. Sim, a vida é tão simples!

Mas tantas vezes furtamo-nos desse olhar calmo, tranqüilo, acolhedor. Preferimos ceder ante a insegurança e ambição desmedidas, porque algum dia ou nalgum momento da história essa pureza foi corrompida e os valores, distorcidos.

Fomos nós mesmos, os seres humanos, quem criamos as regras, as leis e todo um complexo organismo social que ora está a nos tolher e subjugar-nos. E não estou aqui a defender a anarquia: é uma questão do uso que fazemos dos nossos dias, de nossas vidas, que são o bem mais precioso que possuímos.

Não é incomum dar-nos conta que corremos desenfreadamente para atendermos às demandas do quotidiano. Ontem mesmo ouvi a estatística de que o trabalhador com carteira assinada paga, em média, quarenta e um por cento de seu salário em impostos para o governo. (E não vou perder o meu tempo discorrendo sobre as causas às quais eu acredito que o retorno oferecido pelo Estado é insipiente e exíguo). Mas além, sobretudo, existe a exploração do homem pelo homem, até mesmo nas relações humanas.

Corremos tanto e tão desenfreadamente! Muita vez não nos apercebemos disso. Desde quando éramos pequeninos – crianças espontâneas, ingênuas, livres dos vícios – já víamos os nossos pais inseridos nessa maratona sem fim, sem vencedores. Como no mito da caverna, aprendemos a mimetizar o comportamento desumano. E continuamos a reproduzir este padrão sistematicamente, nos diversos níveis e em todas as facetas do relacionamento humano. Não nos apercebemos que somos os únicos responsáveis pelas futuras gerações de seres desumanos: direta ou indiretamente, somos nós mesmos os seus mais implacáveis professores.

Há quem diga que o ser humano é mau em essência. Que as crianças já trazem em seu íntimo o gérmen, a tendência inata para o mau. E disso – podem me chamar de louco – eu ouso discordar. Observo os pássaros, os gatos, os cães, os pequenos animais. Exceto pela capacidade diferenciada de cognição, somos como eles. Temos os mesmos instintos; as necessidades de alimentação, de cuidado, de amor; que são primárias e essenciais para a manutenção da vida.

Trazemos grafada em nossa existência o instinto de sobrevivência. Mas este jamais deveria ser confundido com a ambição desmedida, com os maus tratos ou o abuso de poder. Estes são, antes, desvios de comportamento observáveis nos seres humanos apenas. Degeneração da capacidade cognitiva, numa usura desmedida da característica biológica diferencial de nossa espécie. Porque até os leões matam para se alimentar; e só. Matar para tirar vantagem é coisa desumana.

Mas abandonemos o viés negativo, porque este não é o cerne dessa crônica. Acontece que existe a necessidade de nos desenvolvermos a partir de uma base, compreendermos onde é que estamos pisando, para só então seguirmos adiante. Vamos focar noutra perspectiva. Naquela mais condizente com a natureza humana, em sintonia com os nossos anseios e necessidades ulteriores.

De volta à estatística. Afinal, vêm dessa mesma e importante disciplina, os indicadores que nos trazem algum alento. Dentre tantos dados negativos, vale ressaltar alguns outros (por vezes nos passam desapercebidos, porque estes não dão ibope, outro índice estatístico, e não é por coincidência): nunca tivemos uma massa tão grande de cabeças (potencialmente) pensantes, tantos cidadãos alfabetizados e os avanços tecnológicos são inquestionáveis – da agricultura à medicina, passando pelas mídias sociais que possibilita(ria)m o acesso irrestrito à informação. A qualidade de vida também (em média) só faz melhorar. E estes são fatos inquestionáveis. O problema – ainda no jargão estatístico – são os desvios e as dispersões tamanhas.

Então, muita vez é mais fácil pensar: isso não me diz respeito, eu não tenho o poder de reverter esse quadro, o problema é estrutural, preciso cuidar de minha vida, não posso mudar o mundo sozinho.

Ledo engano: O sol ainda reflete-se numa miríade de gotas d’água recém espalhadas pelo vidro translúcido do box. A manhã e o canto dos pássaros anunciam a chegada do novo dia. Renascidas as esperanças e as possibilidades de caminharmos pela avenida da virtude. Sim, a vida é tão simples!

Experimente a mudança em seu íntimo. Enxergar no próximo o seu irmão. Colocar-se no lugar do outro antes de lhe dirigir a palavra – que é bálsamo e também adaga. A escolha é apenas sua, é minha apenas. E é mais fácil escrever que botar em prática.

Mas tente, com todas as suas forças. Todos os dias, ao alvorecer.

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2 Respostas to “Ao alvorecer”

  1. amigo,

    simplesmente maravilhosa crónica!!!

    Um grande abraço lusitano
    Jorge

    • jorgexerxes said

      Jorge Vicente,

      Fico Contente de Saber que Apreciou a Crônica!
      Grande Abraço de Seu Xará do Outro Lado do Atlântico!

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