Boite Estrela

fevereiro 16, 2011

There’s a time when the operation of the machine becomes so odious – makes you so sick at heart – that you can’t take part. You can’t even passively take part. And you’ve got to put your bodies upon the gears and upon the wheels, upon the levers, upon all the apparatus and you’ve got to make it stop. And you’ve got to indicate to the people who run it, to the people who own it that unless you’re free, the machine will be prevented from working at all. Mario Savio, Sproul Hall Steps, December 2, 1964

 

Paulo observava atônito o irmão largado naquele leito de hospital. Dividia o quarto – quente como o inferno – com mais duas pessoas: a senhora obesa idosa e um menino magro careca. O tratamento oferecido pelo SUS naquele hospital de periferia era como morte lenta. Muito longe para que por lá passassem os repórteres e a gente da tv. Nesses lugares é que se aprende como a vida é cruel – de verdade. A fragilidade de Gustavo era o oposto da imagem que ele tinha do irmão mais velho até então. O que restara daquele seu vigor, da determinação inabalável, exemplo de impetuosidade? Agora era somente ele ali, a apoiar o irmão agonizante. 

O médico havia lhe dito que o golpe no pescoço e o corte causado pelo estilhaço de garrafa haviam subtraído permanentemente a capacidade de articular a fala normalmente. O que seria do Gustavo extrovertido, falastrão de outrora? Talvez reaprendesse a se comunicar com a ajuda de um bom fonoaudiólogo, se dispusesse a explorar novas possibilidades do ar que seria capaz de expirar dos pulmões. Mas isso não era certo, havia perdido muito sangue, o mais importante é que ainda estava vivo, isso sim, era praticamente um milagre – havia lhe dito o médico. Um milagre – pensou Paulo. Será que esse  médico de bosta faz idéia do que está falando? Um milagre o caralho. Gustavo estava fodido e entrevado. O sangue lhe esguichava pelas têmporas. Cada batimento de seu coração ele sentia lá, era como uma martelada na cabeça. Sua sede de vingança ele procurava desesperadamente conter.

Subitamente, Gustavo deixou daquele seu estado de torpor. Parecia querer comunicar-se, dizer algo ao irmão. Paulo lhe estendeu um pedaço de papel e uma esferográfica. Com alguma dificuldade, Gustavo tomou nota, algumas poucas palavras. Depois entregou o panfleto ao irmão, com o olhar soturno. “Boite Estrela, Jacinto” – Paulo ficou a matutar o significado daquilo.

Judite despertou-o do sono agitado. Foi um alívio. Judite disse que Paulo estava agitado, mexendo-se muito na cama e suava horrores. Também com um pesadelo daqueles, remoeu com seus botões. Era meio da noite. Ele foi até a cozinha, abriu a geladeira, serviu-se de um copo de leite e sorveu o líquido até o fim – como que para amainar os seus ânimos. Então se deitou novamente, deu um beijo no rosto da esposa (que sorriu) e deixou-se transportar novamente pelos braços de Morfeu.

Quando o rádio-relógio o despertou, Paulo recordou de imediato do pesadelo. Parecia tão vívido e real que era coisa de dar medo. Entretanto, nada comentou com Judite à mesa do café da manhã. Seguiram juntos no velho Ford Escort de cor azul metálica até o centro da cidade. Deixou Judite no banco, para que ela desse cabo das contas de rotina. Fato é que os negócios não iam nada bem. A pequena empresa de representação de produtos de informática que, a primeira vista, lhes parecia um negócio tão atraente, agora basicamente garantia-lhes a subsistência. Paulo andava sobretudo arrependido de ter convidado o irmão para mudar-se do interior e ajudá-los na loja. Basicamente Paulo cuidava da administração dos negócios e contato com os fornecedores, Judite corria os bancos pela manhã e atendia na loja, enquanto Gustavo visitava as empresas da cidade e região, era incumbido das entregas e de arrebanhar clientes.

Ainda bem que havia sido um pesadelo apenas, refletiu Paulo. No último ano, desde que se mudara para a cidade grande, Gustavo não tinha mais se metido em encrenca, como noutros tempos. Quantas vezes ele, e até os seus pais, na época em que ainda eram vivos, tiveram de interceder em socorro ao irmão, sempre metido em bravatas, confusões e disputas pelo mulherio. Apesar disso, Gustavo era carismático, divertido e a natureza havia sido bastante generosa ao seu semblante e físico avantajado. Em resumo: dava mais alegria que tristeza, como acontece com quase todo o membro de quase todas as famílias.

Aquele havia sido outro dia quente; muito atarefado no escritório e, apesar disso, de poucos negócios. Judite e Paulo chegaram a casa por volta das oito da noite. Tomaram banhos separados (ela primeiro, enquanto ele ficou na tv). Depois jantaram uma pizza requentada do dia anterior. Eles pouco conversaram e, na seqüência, foram para a cama. A tv era o álibi perfeito para uma convivência vazia de significados, perfeita para aqueles dias inócuos, que transcorriam como ritos de passagem entre o nada e coisa alguma – absorvidos que estavam pela profunda apatia, assim como acontece com a grande massa dos casais medíocres.

Mesmo que os anos restituam a pureza e a ingenuidade dos atos, ainda assim haverão cicatrizes forjadas pelos neurônios, assim como as naus trazem os seus sinalizadores luminosos elevados, na intenção de serem percebidas à distância. Sim, toda a vivência serve de matéria-prima a qual o futuro se molda – para o bem ou para o mal. Importante é a interpretação da experiência, a depuração do espírito, ao longo do empreendimento de uma vida, do que virá pela frente.

Adentra a birosca enevoada e fétida pela fumaça dos cigarros. Aquele som apelativo das músicas de corno, aquele ar noir conferido pelas conversas circulares dos embriagados, daquele apinhado de homens reles na disputa por aquelas parcas e descuidadas meretrizes. Paulo pensa no risco que está correndo. Judite poderia despertar a qualquer momento, aperceber-se de sua falta. Não fossem os remédios que ela toma para dormir. A espelunca tem suas paredes sujas e a tinta desgastada. Certos cantos, mais propensos às infiltrações, estão recobertos de lodo. Alguns dos quartos não têm portas, e desses é possível ouvir os gemidos e grunhidos do sexo vadio. Isso parece alavancar a produção da testosterona aos brutos e assegurar o consumo dos aperitivos: da cerveja de rótulo vagabundo e da aguardente.

Ele observa através de uma fresta deixada pela porta entreaberta e vê a frenética dança de uma puta de longos cabelos ruivos. Ela sobe e desce guiada pelo falo de um homem rude, trabalhador braçal. Seu gemido é cativante como se não pertencesse a esse mundo. Jamais havia ouvido uma mulher gozar daquela forma, tão justa, sincera e eloqüente. Era um cântico que transcendia a atmosfera do ambiente para o transporte através das asas do sonho.

Amanheceu um dia quente como o anterior. A rotina de trabalho de Paulo, Judite e Gustavo permaneceu inalterada, de modo que pouco – ou quase nada – é digno de nota nessa inusitada narrativa. Exceto que o estranhamento de Paulo era crescente, dado as suas recentes experiências oníricas. E, infelizmente, era impossível se desvincular completamente destes processos inconscientes do seu estado de espírito em vigília. Os seus sonhos deixavam-no ainda mais exausto e irritadiço do que era esperado dele. Naquele dia almoçaram os três, numa cantina italiana próxima à loja. A comida era bem preparada e oferecida em troca de um preço justo: mesa com saladas variadas, um prato de massas a escolha do freguês e duas opções de sobremesa – fruta ou doce. Judite e Gustavo aparentavam visivelmente maior descontração que Paulo ao longo da refeição, apesar de todos estarem cientes das dificuldades pelas quais enfrentavam nos negócios em família. Certas preocupações não são mesmo para serem postas à mesa.

Durante a tarde Paulo pesquisou via internet e na lista telefônica pela tal “Boite Estrela” sinalizada pelo seu pesadelo recorrente sem, entretanto, obter qualquer referência nas imediações da região metropolitana onde morava. Refletiu seriamente sobre a carga de estresse que vinha sofrendo no trabalho e a real necessidade de tratamento médico. Mas os compromissos quotidianos sobrevieram e ele abandonou essa natureza subjetiva de elucubrações, partindo àquelas de ordem prática: contato com fornecedores, avaliação das duplicatas pendentes e projeções das vendas de curto prazo. A noite terminou com Judite e Paulo largados na cama, atentos à televisão ligada, até que atendessem a um novo chamado de Morfeu.

Segue pelo calçamento irregular paralelo à rua estreita de paralelepípedos, naquela noite o orvalho é denso, quase chuva. A luz emana fosca da pequena passagem que leva ao inferninho. Ainda do lado de fora, observa a placa metálica, carcomida pela ferrugem dos anos: “Boite Estrela”. No interior da bodega chama-lhe a atenção um senhor de modos rudes e simplórios, vez por outra exprime aquela sua gargalhada insana e parece monopolizar a atenção do círculo de freqüentadores ao seu redor – dentre velhos, os marmanjos e algumas putas. Seu olhar é doutro mundo, os globos rubros pela irrigação sanguínea característica do abuso de bebida e tabaco. Ele parece aperceber-se da aproximação de Paulo. Ergue o braço esquerdo e faz um sinal com a mão, convidando-o a aproximar-se. O pessoal da roda dirige seus olhares atentos em direção a ele. Quando está a dois ou três metros de Jacinto, este lhe aponta, com o punho cerrado e o dedo indicador em riste, um corredor lateral ao salão principal.

É escuro, ermo, Paulo não havia sequer notado este corredor anteriormente, dava numa escada rústica, de madeira, que por sua vez, levava ao piso superior da espelunca. Ele reconhece aqueles frêmitos de fêmea vindos de um dos quartos, cuja porta está entreaberta. Aproxima-se, o piso range, mas o casal parece indiferente, absorto pela fornicação. Paulo observa, atento e silente. Agora a ruiva de cabelos longos está de quatro, o homem penetra-a vigorosamente o ânus. Ela urra num misto de dor e prazer. Seus movimentos lembram um cavalgar selvagem, o homem toma-lhe os cabelos com uma das mãos, fazendo-a erguer o tronco, e com a outra mão agarra o seio, firme, farto.

De súbito o frenesi da penetração amaina, a mulher lança um olhar em direção à porta entreaberta e Paulo identifica o semblante da mulher. Ele fica atônito, como é possível, o coração parece saltar-lhe a boca: é ela mesma, sua esposa Judite, quem está fodendo com Gustavo. Paulo desperta encharcado de suor. Observa Judite deitada ao seu lado, na cama, num sono tranqüilo. A mulher esboça um discreto sorriso, através do alongamento das extremidades de sua boca e a sutil contração das pálpebras. Paulo levanta da cama. Segue até a cozinha, a cabeça lateja de uma dor lancinante, como se seus miolos é que houvessem sido fodidos. São quatro horas e vinte e dois minutos da madrugada. Ele enche um copo d’água, engole um comprimido analgésico e sorve o líquido na seqüência. Retorna para o seu quarto e tenta retomar o sono, em vão.

Naquela manhã, assim que Gustavo chegou à loja, Paulo chamou-o e também a Judite para uma reunião de trabalho. Ele apresentava olheiras marcantes, suas mãos estavam trêmulas. Mostrava-se realmente abatido. Paulo explicou que a situação financeira do negócio não ia nada bem – e isso não era novidade para nenhum dos três. Disse que precisava conter gastos e, avaliando o benefício dos custos fixos, havia chegado à conclusão de que, realmente, precisaria dispensar o irmão do trabalho. Caso contrário a empresa e todos eles iriam, certamente, à bancarrota. Gustavo aquiesceu. A vida não era fácil para ele, e vice-versa – ele não se deixava abater facilmente. De certo arrumaria um novo emprego, noutra empresa. Provavelmente voltaria para o interior, de onde tinha vindo para assumir o cargo ao lado do irmão e da cunhada. Judite não interveio. Os três pareciam tristes com a novidade. E o dia transcorreu assim; apático e lento.

Algumas semanas depois, Gustavo mudou-se para outra cidade. Arrumou um emprego como vendedor de materiais de escritório. Meses se passaram. Aos poucos, os encadeamentos oníricos recorrentes de Paulo foram cessando. A empresa de representação do casal se reafirmou no mercado. Vieram os lucros. Uma fase próspera. Até a rotina de Paulo e Judite adquiria, agora, cores vivas. Saiam para jantar fora algumas vezes na semana. Iam juntos ao cinema. Beijavam-se mais, e exercitavam o papai-mamãe com a freqüência de duas a três vezes por semana. Mas Paulo jamais revelou a Judite quanto aquele seu pressentimento – infundado – de que ela e o cunhado haviam sido amantes. É sabido que o tempo se encarrega de por as coisas nos trilhos: os pingos nos seus devidos is e realizar os necessários cortes dos tes.

Certo dia, logo pela manhã, Paulo recebeu uma chamada inesperada do hospital da cidade na qual Gustavo estabeleceu residência. Paulo informou Judite do ocorrido, disse que precisaria deixar a loja naquele dia, tomou o velho Ford Escort azul metálico e rumou para lá.

Paulo observava atônito o irmão largado naquele leito de hospital. Dividia o quarto com mais duas pessoas: uma senhora obesa idosa e o menino magro careca. A fragilidade de Gustavo era o oposto da imagem que ele tinha do irmão mais velho. O que restara de seu vigor, daquela determinação inabalável, exemplo de impetuosidade? Agora era somente ele ali, a apoiar o irmão agonizante.

O médico havia lhe dito que o golpe no púbis e o profundo corte no pênis, causado pelo estilhaço de garrafa, haviam subtraído permanentemente a capacidade de levar uma vida sexualmente ativa. O que seria do Gustavo extrovertido, falastrão de outrora? Talvez pudesse colocar um implante com a ajuda de um bom cirurgião, se dispusesse a explorar novas possibilidades do amor. Gustavo havia perdido muito sangue e o mais importante é que ainda estava vivo, isso sim, era praticamente um milagre – disse-lhe o médico. Gustavo estava fodido e entrevado. O sangue esguichava pelas têmporas de Paulo. O médico lhe perguntou o que ele pensava disso, antes de abordar pessoalmente o paciente quanto ao sombrio prognóstico. Paulo sacou um cigarro do bolso da camisa. Acendeu-o, tragou lentamente, expirou a fumaça, então ele disse: eu acho é pouco.

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