Anatomia entre dois saltos

maio 18, 2010

O gato branco salta silencioso sobre a cadeira.

Observa profundamente os meus olhos

com aqueles OlhOs seus:

um verde e outro azul.

Depois ele deixa-se ir.

Lento,

sem medo,

como se nunca estivesse ali.

A cadeira ainda guarda o calor de seu corpo felídeo.

Sua arte do desvanecer.

A liberdade dele me diz muito:

da preguiça,

da coisa toda de não fazer,

do lamber-se cuidadoso e asseado.

Alvas felpas,

garras retráteis

e a cauda sinuosa.

Nada falam do que não foi.

Não se ocupam em espreitar o futuro

ou arrepender-se do que passou.

Fluem íntegras através do agora.

Vazam líquidas num caminhar sólido,

firme,

de um passo quieto e magro

de quem absorve a maciez do chão

e lhe devolve o salto em dobro.

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Uma resposta to “Anatomia entre dois saltos”

  1. João Lima said

    Muito bom! Gostei, Jorge. Sutil e preciso como o salto de um felino…

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