Vestir para a ceia

maio 3, 2010

Ei, você!

Bota essa sua camisa preta de manga longa; abotoa-a bem ao colarinho e nos punhos. Veste aquela cueca samba canção, de seda dourada – te disseram atrair a riqueza. As meias pretas. Aquele seu terno preferido, também preto, risca de giz, de caimento perfeito. Sapatos novos, brilhantes, prontos para trilhar novos rumos. Na gravata o nó adequado à ocasião festiva. Toma esse teu livro preto; leva ele em sua mão canhota. Barba feita, os cabelos bem aparados e devidamente penteados. Apenas um toque de maquilagem para parecer mais saudável, jovial. Aquele seu sorriso austero no rosto. Nobre. Dois pequenos chumaços de algodão cuidadosamente instalados internamente às narinas. Deitado em sua urna – madeira de lei.

Você sabia de antemão haver data e hora marcadas para este encontro. Pagou um bom jazigo, na ala dos abastados. Sua lápide de pedra grafada. Frases de efeito dos poetas afamados. Mas enquanto desces – len-ta-men-te – sente o arrepio na espinha. Sabe bem que a ceia está prestes a ser servida. É você o prato da vez.

Alguém te disse que quando a gente morre passa um filme da vida da gente. 3-D? Você tratou de recheá-la dos bons momentos, uma vida agradável, sem sobressaltos, assim como te mostraram nessas novelas da tv, onde ao final tudo dá certo. Mas qual o que: tudo aquilo que passa em sua mente são as suas piores escolhas. Toda vez que você topou com a encruzilhada; seguiu pela trilha mais fácil. Você se recorda, então, de quantas vezes foi covarde, vaidoso, omisso; preferiu se calar, vilipendiar e explorar. Agora sua urna de madeira de lei não serve de escudo. É apenas mais um flagrante delito de atentado à natureza centenária da vida.

Faz frio, é úmido e escuro sete palmos abaixo da terra. Para cada vil criatura – como você – existem milhares deles – os vermes. Eles te penetram lentamente através dos seus orifícios. Pelas cavidades nasais, pela sua boca, pelos ouvidos, entram pelo seu ânus. Mastigam lentamente os seus globos oculares (iguaria), a carne do seu cérebro, todos os seus miolos. A dor é lancinante – e você continua sentindo. É feito dessas suas fraquezas o tempero acerbo que os vermes mais apreciam. É porque você não esgotou as suas potencialidades que eles se regozijam. Eles vivem disso: da vida que você se furtou.

Em meio aos delírios, chega a imaginar que não morreu; que você ainda está vivo. Mas que nada. Agora é você consigo mesmo. E sua consciência é implacável.

Então você pensa: – Ah, se o arrependimento matasse! Mas quem te mata é a vida.

Ei, você!

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