O “Pequeno Álbum” de Viegas Fernandes da Costa

abril 7, 2010

 

1. Da chegada

Fim de tarde. Estou defronte a pia, lavando as louças. O porteiro chama pelo interfone. Interrompo meu afazer, seco as mãos no pano de prato e atendo ao chamado. “Você conhece algum Jorge Xerxes? Escritor?” Explico para o porteiro – de nome Paulo – que Jorge Xerxes sou eu – este é meu pseudônimo. “Então você é escritor?” Falo de coisas incomuns ao quotidiano de sua profissão, naquele prédio de tijolo à vista, um tanto judiado pelo tempo, localizado na região central de São José dos Campos. “Ainda bem que você está aí. Por pouco não devolvo ao carteiro”, diz o porteiro.

Moro só e passo pouco tempo no pequeno apartamento alugado. Minutos mais tarde – as louças limpas e secas; a mala arrumada para a viagem – passo pela portaria e tomo a inusitada correspondência. No campo do destinatário está escrito “Ao escritor Jorge Xerxes”. Destinatário quase-desconhecido. Rasgo o envelope oriundo de Blumenau. Dentro dele um livro fino, de capa cinza-azulada. O “Pequeno Álbum”. Boto-o na mala. A mala no carro, e vou viajar. Ansioso pelo final de semana prolongado; pela possibilidade que esta leitura representa.

 

2. Um álbum de vida

Neste livro, Viegas Fernandes da Costa – o terceiro do autor catarinense – apresenta-nos uma coleção de contos curtos. O livro conta ainda com as ilustrações singelas e inspiradas de Daiana Schvartz – que compõem e permeiam à torrente de emoções, sentimentos e imagens desencadeadas pela leitura deste pequeno álbum.

O primeiro dos contos, cujo título é “Poema”, aborda exatamente cada uma destas facetas a partir das quais a arte e a sensibilidade se expressam através do artista em momentos distintos. “Um silêncio repleto de estrelas e medos. E então houve esses dias em que o verso me doava seu divã. Catárticos versos, esses.” “Houve então esses dias em que o verso me doava o silêncio.” Negar a existência da poesia, nesse âmbito, é reforço e alicerce dela mesma.

Este álbum traz consigo reminiscências: o carinho da proteção; a inocência da infância. Um conto que fala do amor. “Quero meus poemas em ti, constituídos desta matéria marcada apenas na memória dos nossos corpos.” “Ah… não há culpa no belo!” Outro da solidão de um coração envolto por teias de aranha.

Em “O buquê e esta farsa” oferece um “buquê de filosofias baratas; estéreis assexuadas filosofias baratas” para a mulher que dança voluptuosa num bar – “Ah, é noite, é dezembro, é o fim!” – para depois revelá-la também frágil e humana. “É isso, este quarto de menina, esta farsa e este buquê de filosofias baratas. É isso, a caixinha de música e o calendário na parede esquerda.”

Trata das “mãos que servem, que tocam, que marcam sussurros de breve calor e depois abanam em despedida” e da plena doação: “Estou em tuas mãos.” Do arrependimento com relação àquilo que se sucedeu às borboletas. “Mais teria ganhado se tivesse visto brilhar suas muitas cores em meio à colheita e corrido no rastro de suas asas como criança inocente.”

Cenas fortes na madrugada: “A lua cai no lago, e os pássaros se calam. Porém, não há luz de lua alguma, não há lago, e como posso saber se calaram os pássaros quando, em dia, não os ouço cantar?” “Um pássaro sem asas corta o ar e busca o chão negro de asfalto.” Ou a “boca sem palavras em um rosto sem face – apenas sombras e um par de olhos injetados de ódio reclinados sobre si.”

Alguém põe, nalgum momento, o mundo de ponta-cabeça. Noutro canto, uma reflexão: “Por isso, à fortaleza, pétrea, prefiro a areia, dispersa e solta, depurada pelo tempo.” Uma narrativa sobre o encontro com a ancestralidade. “Nada sabiam daquele povo sambaqui, ‘coisas de índios’, repetiam-se, cujo valor media-se em doces.” “Assentados sobre um pré-histórico sambaqui. Tudo ali cheirava ancestralidade: as pedras, a praia, as já camufladas montanhas de conchas há tanto empilhadas.”

É de “Epifania” o seguinte trecho: “E abandono a idéia de plantar palavras em vasos de cristal, inúteis lavras colhidas ao acaso. Quero-as cultivadas na carne, quente carne de mulher, misturadas aos silêncios da distância e aos suspiros de prazer.” “Caminhar assim é não saber aonde chegar.”

A elegia ao anonimato e à efemeridade de uma vida. “Ah, viver essa vida anônima, acender todas as manhãs a lâmpada da cozinha e preparar o café.” “Não me perceberá o velhinho que madruga para me ver passar, todas as manhãs, da sua cadeira na varanda.” E a mais sincera desesperança. “Como olhar-te o rosto, criança, e dizer ‘acredita!’ se já não mais o creio possível?” “Espantalhos no deserto guardando a colheita que nunca foi, assim meus sonhos me esperam.”

O vislumbre do excêntrico, de rara beleza: “Hoje as lembranças são confusas.” “Quero parir o poema dorido abortado nos lábios – poema suspiro! Encontro-o na placenta do mundo; ao fundo, as cordas desafinadas de um violino que um dia vi tocado numa praça em Curitiba.” “E a chuva lava o meu dia.” “Gargalha a boca de moles gengivas aos gemidos do arco às cordas. Que toca, desejo saber? Inaudíveis sinfonias, reconhecidas apenas por si. E dança a velhinha a polca imaginária.” “Mira seu homem que toca contente, ternura e lembrança do amante de ontem. Para onde migrarão depois, tão flácidos corpos?” “É praça e há toda esta multidão de juízes que reconhece a loucura ao ritmo de palmas.” “Anseio este poema onde busco me enternecer.” “É bonita esta história que nunca aprendi a contar, que nunca souberam entender.” “Descobri-me este poema abandonado em meio à praça estranhamente vazia.”

As diversas faces do silêncio. Em “As mãos em concha”: “o mesmo silêncio de ecos d’um templo gótico, respeitoso e grave, talvez, não fossem tão tenros olhos e a liberdade do corpo jovem, solto e adormecido, a pele fresca e abandonada ao prazer. A luta fora intensa!” Enquanto noutro conto será “este silêncio próprio do universo, este sacro silêncio que nos aproxima do divino.”

Desde aqueles banhos de Teresa. “Lavou-se inteira, Teresa.” Passando por aquilo “que nos resta.” “10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo.” “Assim se faz verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios.” Daí até quantificar o amor; declará-lo infinito.

 

3. Sobre o livro

Pequeno Álbum

Viegas Fernandes da Costa

Editora Hemisfério Sul

87 páginas

ISBN 978-85-868-5739-3

 

Uma torrente de emoções, imagens e sentimentos. Quiçá, o seguinte excerto – extraído “Da Poesia” – seja uma síntese digna da obra: “A poesia é esse encontro único e belo, inédito e eterno, porque guardado com ternura na memória daqueles que o viveram.”

 

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