Réplica à Confissão de Picasso

novembro 10, 2009

(1) As múltiplas possibilidades artísticas transcendem os retratos de época. Ex: Imagine uma seqüência de pinturas rupestres apresentando um hominídeo da espécie Homo erectus tentando extrair faíscas de pedras lascadas. De repente, frente ao fracasso da primeira tentativa, este lança mão de um telefone celular; pede a receita do fogo para o seu colega mais sabido; e produz luz. Esta alegoria certamente se vale de uma expressão primitiva, embora incorpore elementos atuais, consubstanciando a arte contemporânea. De fato, a arte pode romper com a restrição imposta pelo tempo – para além daquilo que sugere a Teoria da Relatividade Especial.

 

(2) Os hippies te parecem ridículos? Ouça “Little Wing”, “Castles Made of Sand” ou “Bold As Love” do Jimi Hendrix. Ouça a sua versão para “All Along the Watchtower” do Dylan.  Jimi Hendrix revolucionou o som da guitarra. É o gênio hippie inconteste. As distorções e efeitos que ele introduziu em suas canções originais reverberam através de diversos dos ritmos musicais contemporâneos – propagação de ondas além túmulo?

 

(3) Mas grande maioria de suas canções tem pouco ou nenhum apelo popular. Exceto algumas de suas pérolas – como aquelas citadas acima – existem tantas outras – quiçá ainda mais brilhantes – que só podem ser apreciadas após um profundo conhecimento do rock e do rhythm and blues – formatos artísticos que Jimi Hendrix literalmente botou de pernas para o ar. Decorre daí que o principal critério para a permanência de uma forma de arte não é a aceitação do público. Mas sim a capacidade transformadora da obra. A semente muita vez passa desapercebida. (E isso evita que ela seja devorada pelos predadores; existem aos montes por aí). Com o tempo as raízes cravam profundas na terra, mostra seu tronco robusto: revela-se ramificação da vida.

 

(4) Sobre a confissão de Picasso:

“Na arte de hoje os ‘refinados’, os ricos, os profissionais do lazer, os destiladores de quintessências, todos desejam apenas o peculiar, o sensacional, o excêntrico, o escandaloso. Eu mesmo, desde o advento do cubismo, alimentei esses companheiros com o que eles queriam e satisfiz os críticos com todas as idéias ridículas que já passaram pela minha mente. Quanto menos eles me entendiam, mais me admiravam. E assim divertindo-me com essas farsas absurdas, eu fiquei célebre, e bem rapidamente. Para um pintor, celebridade significa vendas e conseqüentemente afluência. Hoje, como você sabe, eu sou célebre, eu sou rico. Mas quando estou sozinho, eu não tenho o descaramento de me considerar um artista completo, no velho significado da palavra. Giotto, Ticiano, Rembrandt, Goya foram grandes pintores. Eu sou apenas um palhaço público – um charlatão. Eu entendi meu tempo e explorei a imbecilidade, a vaidade, a avidez de meus contemporâneos. É uma confissão amarga, mais dolorosa do que possa parecer. Mas pelo menos ela tem o mérito de ser honesta.” (Pablo Picasso, 1951)

 – Arroubo poético?

 

(5) E decorre do item anterior o seu reconhecimento pela genialidade do próximo – seja este Giotto, Ticiano, Rembrandt, Goya ou outro ainda. Dentro do balaio da arte existe espaço para a subjetividade. A quinta-essência da arte é a capacidade que esta traz de conectar as criaturas. São muitos os veículos através do qual a arte se manifesta: conceito, imagem, idéia, sabor, som, movimento… e até mesmo a dúvida dela mesma – como a confissão de Picasso.

 

(6) Com a população mundial se aproximando da casa dos sete bilhões de habitantes – com tanta cultura e diversidade; com os avanços tecnológicos e as ferramentas computacionais – deve haver espaço para as mais variadas manifestações artísticas. O que estas têm em comum é a capacidade de unir, conectar em torno de uma ou de infinitas idéias.

 

(7) E com vistas a essa perspectiva não-excludente: arte é um direito de todos! Você lê o seu Paulo Coelho, eu leio meu Rubem Fonseca.

 

(8) “Haverá vida depois das seis?”

 

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