Ser errante

abril 23, 2009

 

Não vale a pena explicar.

 

Sabe-se lá se é possível estabelecer uma linha de raciocínio sobre esta natureza de coisas. Existe uma dada casta dos filósofos e pensadores que admite mesmo a total impossibilidade da comunicação de certas experiências subjetivas através dos veículos da linguagem – seja por meio da escrita ou da fala. Receio que esta definição se enquadre numa destas herméticas exceções. Ainda assim, o esforço não será vão. Preciso organizar minhas próprias impressões; e é provável que a descrição auxilie neste sentido. Mas é difícil.

 

Creio que Você não entenderia sobre lamparinas que apagam e acendem sozinhas. Ou será esta afinal a artimanha dos vaga-lumes? São caóticos os faróis que apontam o caminho. Não guardo os mapas corroídos pelo tempo. Todas outras embarcações levam aos flagelos do corpo, para a salvação da alma. Mas a quem é que interessa postergar o prazer das graças terrenas frente àquilo que há de ser mera promessa doutra vida? Apenas por caridade ou burrice é que a criatura move o garfo em direção à boca do semelhante.

 

Você prefere acreditar no fracasso das caravelas que desafiam a vida contra as adversidades de todo o oceano da existência. Mas prefiro o naufrágio certo da tentativa absurda de seguir viagem a despeito das correntes. A terra firme é morada das pedras e de toda a sorte dos seres que já pereceram. Sequer aos vegetais ela agrada tanto quanto a água das chuvas. Que atrativos teria então aos peixes?

 

Basta-me o subir e descer das marés para a arte da espreita de horizontes que delimitam outras moradas. Rumo à experiência. Isto é tudo que carrego no baú vazio dos sonhos. Combustível que serve à nau de velhos lobos do mar.

 

 

 

 

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Uma resposta to “Ser errante”

  1. Nossa! Gostei mesmo!
    “A terra firme é morada das pedras e de toda a sorte dos seres que já pereceram.” Fico pensando muito nisso… tem dias em que acho que sim, outros fico na dúvida, mas vou seguindo em frente, também com meu “baú vazio de sonhos”. Um baú que busco freneticamente preencher, porque sem sonhos a vida parece não ter sentido. Assim, falo deles em minhas poesias, deságuo no seu horizonte e fico olhando pela fresta da janela que me esconde do mundo.
    Parabéns por seus textos, seu blog é bom de visitar.
    Bjus e um bom restinho de semana.

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