Gigante

março 24, 2009

Jorge encontrou Diogo no cercado; aos fundos do casebre. Estava agachado de cócoras. Jogava quirela aos galos, galinhas e frangos. Jorge imaginava os pensamentos dele como um emaranhado de estranhas idéias. Quimera do fazer-se útil num mundo que não lhe pertencia. Peça perdida do quebra-cabeça dum outro jogo. Ou coisa que o valha. Carvão em mina de diamantes (de nada presta). Diogo acenou e esboçou aquele seu sorriso impossível; inviável; inconcebível. O esforço incomensurável de sua existência era perceptível até às ervas daninhas. Fazia elas se curvarem com maior intensidade que o próprio sol do meio-dia.

 

Seguiram os dois juntos para o boteco. Calados. Diogo rememorava as queixas da mulher antes dela partir. Disse que ele era um imprestável; um vagabundo. Não despendia cuidado ou atenção aos filhos. Passava os dias deitado no velho sofá; dormindo; enquanto o mundo lá fora às trezentos e sessenta e cinco revoluções por ano. Talvez fosse apenas falta de sincronismo. Um outro ritmo ou freqüência soprava nele. Mais lento. Fato é que enquanto ele dormia (com seu bigode suado – a mulher o lembrava sempre do detalhe inútil) todo aquele jogo cósmico se enchia de significados. Em seus sonhos as paisagens singelas do interior adquiriam um colorido resplandecente; rico em nuances de tons; ele discutia assuntos de grande relevância com criaturas muitíssimo evoluídas. Vez ou outra ele levava alguma preocupação do pessoal da comunidade ao conhecimento deles. Era para ele, Diogo, a quem encaminhavam as respostas. Mas ele acordava sempre aos cascudos e berros da mulher. Mesmo agora que isso já não acontecia, ele de nada recordava. Como uma experiência dos sentidos; que não se pode traduzir por palavras. Restava o bigode suado. Os problemas da vila – mesmo aqueles mais graves – resolviam-se pelo próprio intento dos homens.

 

Diogo cumprimentou Antonio que estava por detrás do balcão da bodega. Servia a aguardente e a cerveja aos poucos fregueses; ao mesmo tempo em que preparava os saborosos tira-gostos do dia: ovos empanados, salsichas e torresmos. Clayton e Dagoberto já esperavam por eles à mesa. Doutor Clayton era o médico da vila há tempos. Vindo da cidade grande, foi lá que ele fez clientela e fixou sua morada. Era conhecido; respeitado; às vezes até benevolente com os mais humildes. Apesar da pobreza da comunidade, ele se endinheirou. Era alvo das meninas assim que se faziam mulheres. Viam nele a possibilidade da realização do sonho de emprenhar; garantir o sustento de uma prole próspera e saudável. Mas Doutor Clayton era esperto. Dizia apreciar mais o treinamento para a concepção que a própria realização. Solteiro. Ajudou muitas mulheres na hora do parto; foi padrinho de outros tantos casamentos; dentre outras coisinhas mais.

 

Sentaram-se Jorge e Diogo em lados opostos da mesma mesa. Clayton e Dagoberto na perpendicular; também cara a cara. Diogo sabia muito bem o significado disso. Jorge tomou o baralho; passou a manusear as cartas lentamente; embaralhando elas todas; enquanto Dagoberto servia a cada um dos homens um copo americano da cerveja bem gelada. Clayton fitou Diogo e sentiu extrema piedade daquele homem de meia idade; magro; a pele num estado lamentável; castigada pelo sol; franzino; frágil; um sopro faria desmoronar todos os seus ossos. Ele parecia sempre ausente. Como se tivesse viajado para dentro. Como uma pedra.

 

Diogo se lembrava, mentalmente, dos belos discursos de Dagoberto (e como seria bom se tivesse, ele mesmo, um único dom). Dagoberto era vereador; liderança da vila. Sua voz soava forte e clara; tinha a capacidade de inflamar as massas por uma causa qualquer que ele julgasse relevante. Aglutinava as pessoas. Não era bom nem mal. Nunca conseguia levar adiante seus projetos; mas isso não era mesmo coisa de político; a culpa era da verba curta ou dos funcionários preguiçosos; principalmente daqueles que ganhavam o salário mínimo e comiam da marmita às dez e meia da manhã; vê lá se isso é hora de almoçar – ria-se o corpulento Dagoberto.

 

Clayton cortou o baralho e Jorge distribuiu três cartas para cada um dos homens. Jogavam truco e bebiam cerveja – diversão predileta dos boçais. Diogo havia sido chamado por que era nada. Morava perto; e Jorge precisava de um parceiro. Eles jogavam magnificamente bem. Sabiam a hora de blefar e tirar um ponto impossível dos rivais. Dominavam a arte da dissimulação; faziam os adversários acreditarem que podiam trucar com um mísero rei na última mão. Como sempre, ganhavam uma ou duas partidas; depois deixavam Dagoberto e Clayton levarem outras três. Ele não entendia; mas isso era coisa de Jorge; que Antonio compreendia e apoiava. Dizia que devia ser assim; para o bem deles todos. Enfim, seu lugar no espaço era aquele dos derrotados.

 

Diogo tinha lá seus segredos. Ele podia encher a mão de areia e deixá-la vazar por entre os seus dedos por uma tarde inteira. Acompanhava cada grão da areia com o olhar tão ínfimo e desprezível dele próprio; em cada um deles percebia o brilho refletido do sol; espécie de caleidoscópio em formato de cachoeira. Noutro extremo, podia fazer a areia vazar rápida; de forma que os grãos separados se fizessem imperceptíveis; como o fluxo de um líquido. Ele tinha capacidade de acelerar ou retardar o tempo. Mas é certo que Diogo não sabia se era fato; ou apenas mais uma confusão imputada de sua própria condição.

 

Diogo era um homem pequeno. Simplório. Calejado. Abandonado na crosta terrestre. Deslocado da escória do ser humano. Ele crescia para dentro. Há tanto tempo que dentro dele habitava um gigante.

 

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