Em defesa à alquimia literária

fevereiro 15, 2009

 

 

Estimado Jacinto,

 

A tua garrafa está cheia até a telha de um destilado ruim e barato. Faz com que enxergue um cenário opaco e distorcido através do vasilhame que – dada a tua incapacidade de transcendência – imagina puro; cristalino; quiçá, libertador. Por isso não o recrimino pela crítica que ora me dirige; ao contrário agradeço por ter sido objeto de atenção nalgum momento de tua pífia existência. Isto é antes motivo de orgulho; regozijo para a alma clara; cansada de vagar desapercebida às trevas da infinita Terra.

 

Antes de discorrer em minha defesa, rogo ao meu Santo forte a capacidade de fazê-lo à altura de uma ambição desmedida –enorme a energia empregada no trabalho antigo, simples, natural. Trilho no qual tantas locomotivas já descarrilaram, que é coisa de meter medo. Mas não me acanho. Pratico o exercício do salto entre os abismos pelas próprias pernas.

 

Abandona, então, a sisudez dos números para as artes práticas das idéias. Faz de conta de um artesão das palavras. Ofício que é ao mesmo tempo nobre e pobre; posto que não há de servir de alimento para o corpo (ou de sustento ao indivíduo); mas de elevação da alma – tão longe quanto ela possa ir. Deixa, que eu te levo.

 

Escrever é a expulsão de uma dor absoluta. A nossa Terra tem inúmeras frestas para magníficas vistas: mas quão efêmeras! Todo resto é a mazela humana. Lama da qual o trabalhador lentamente vai se despojando. Fica registrado o anseio infinito, que de tanto querer, um dia depois do outro, é da matéria pensante que o futuro se molda.

 

A frase reverbera aos ouvidos do surdo que lê. A palavra sensibiliza a retina do cego que ouve. A estória da estranha melodia entoada pelo coral de mudos – por mais breve que seja o instante. Não terá sido vão o esforço. Pode ser ainda difícil a compreensão para aquele que tem os sentidos entorpecidos pela abundância (vê, ouve, fala). Mas não faça de desentendido. Assim como o ignorante ri da boa piada, há de chorar o insensato a sua lascívia.

 

Pega então tua garrafa (agora vazia). Bota dentro dela um barco, uma caravela. Deixa soprar o vento na vela. Põe isso na tua cabeça. Antes que seja tarde.

 

 

Jorge Xerxes,

 

Escrito aos dias de hoje.

 

 

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