O processo da idéia em 75 dias

janeiro 22, 2009

Onze de Janeiro. Jacinto adentra o boteco e pede uma dose de aguardente. Vira de um gole só. Um raio parte ao meio sua espinha cervical; estremece todo o corpo. Diz que lhe desceu atravessado.

 

Dezessete de Janeiro. Julia é determinada e trabalhadora. Funcionária de uma fábrica de macarrão. Seu filho, Denis, um garoto de seis anos, passa suas tardes entretido pelo vídeo game de última geração.

 

Vinte e seis de Janeiro. Talita brinca de boneca. Ela tem sete anos. Adora cantar. Curte a música moderna do início do terceiro milênio. Augusto é o nome de seu pai. Tipo bigodudo e tal; doutor da Lei.

 

Segundo dia de Fevereiro. “Existe a capacidade de construção anterior da realidade. É claro que a velocidade de colapso para a realização é lenta. Uma espécie de cristalização que se dá a partir do pensamento concentrado. É preciso muita determinação. Enfim, é possível, ao menos, colaborar com aquilo que vem por aí.” Escreve doutor Augusto na agenda reles de borracharia vagabunda. Foto de mulher pelada no canto inferior direito de cada página. Entre uma consulta e outra; no escritório onde exerce o trabalho de advogado.

 

Lua cheia ao nono dia de Fevereiro. Curva à esquerda; curva à direita; aceleração máxima na reta; ultrapassagem arrojada da moto pilotada pelos fantasmas risonhos; cruza em primeiro lugar a linha de chegada. Denis brinca no quarto. Luzes apagadas para potencializar o efeito visual da parafernália de imagens. Volume máximo do som. Noutro canto, Julia dá duro no controle de qualidade dos setores de embalagem e processamento da massa; nas mais diversas formas. Sai do serviço. Ela pára no estabelecimento a caminho de casa. Pede um refrigerante de limão. Recebe um confeito de hortelã, que é dado como parte do troco para o refresco. Julia vê graça na menina Talita bancando a dançarina no saguão da panificadora. Ela presenteia a pequena com a bala de hortelã. Talita toma o automóvel de volta para casa; com seu pai ao volante. Doutor Augusto e Julia não se vêem.

 

Dezesseis de Fevereiro. Chove o dia todo. A cidade imersa num sono profundo. É tarde da noite. Jacinto, bêbado de bar, envolto em conversa circular com os seus comparsas. Infinita de tão absurda. Sem sentido. Sonha o vídeo game do futuro em sua mente – Denis dorme tranqüilo.

 

Vinte e quatro de Fevereiro: Carnaval. As pessoas já não cheiram mais do lança perfume. Uns partiram (morreram); é fato. Mas outros tantos (absoluta maioria) se divertiram para caralho. Jacinto pede uma dose da aguardente. Como naquele musical com Toquinho, Vinícius, Miucha e Jobim. Gravado para a apresentação da tv italiana em 1978. Ninguém entende o velho sentado no meio do palco. Garrafa de whiskey sobre a mesa. Velho maluco saravá. “Carnaval, beijo na boca, delícia e paixão…”

 

http://www.youtube.com/watch?v=jIRkCwqa4Kk

 

Quatro de Março. Denis ganha de Julia um saco com doces de banana, acondicionados em papel, no formato de bala. “Será que é possível, então, exercer a co-autoria da própria existência (mentalização anterior para a precipitação da realidade)?” Julia toma nota. Caderno de propaganda da fábrica de macarrão. Massa nas mais diversas formas.

 

Dez de Março. Talita e Denis conversam durante o recreio na escola. “Minha bala de hortelã por uma das suas de banana.” Troca de confeitos entre os meninos. Julia e Doutor Augusto não se encontram.

 

Dezoito de Março. As especulações todas erradas. A realidade, ora, é a realidade. As linhas à palma da mão do destino. Sempre pronta para tomar às rédeas o controle da situação. Jacinto vira de um gole só o pequeno recipiente com a aguardente. O que mais esperar da vida?

 

Vinte e seis de Março. Doces só para as crianças. (Sacou?) Aguarde sua vez.

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3 Respostas to “O processo da idéia em 75 dias”

  1. ana said

    vc é maluco, quem é quem nessa estória?
    Quem bebe refri de limão? É vc, ou Jacinto
    Há 75 dias , o que aconteceu? Sei lá foi um dia difícil…

  2. jorgexerxes said

    A estórinha é contada a cada mudança
    de fase da Lua. Começa em 11/01/2009
    e termina em 26/03/2009 (por isto dura
    75 dias). Julia é mãe do Denis…
    Augusto é pai da Talita… as idéias
    ficam abertas… para cada um interpretar
    à seu modo… JX

  3. Banvarte said

    São fatos esporádicos de um dia a dia, comum. Legal.
    Lembra o estilo da Clarice Lispector.
    Em fatos aparentemente sem nada de profundo sempre pode residir algo de nota.
    É mesmo, o menino no vídeo game. Coisa natural, mas interessante reparar nisso, no presente. E isso é difícil, por ser comum e nada, digamos, notável.
    Mas se isso for filmado ou fotografado, daqui 20 anos alguém vê e diz:
    – Olha o menino, jogando vídeo game … lembra como era isso ?
    – Lembra do tele-game ?
    – Jogo de botão ?
    – Boneca feijãozinho ?
    Acho que é um exercício difícil (e belo) antecipar uma notoriedade, ainda que TUDO possa ser notável um dia …
    Se notoriedade é contraste, é um desafio passar uma percepção emocional de contraste em algo que aparentemente não é digno de nota.
    O autor conseguiu isso, pelo menos na minha interpretação de leitor comum, ao contextualizar um conjunto de fatos assim, cotidianos.
    Gostei das reflexões do doutor Augusto.
    São dizeres dignos de nota. Absolutamente. Declaradamente.

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