Armadilhas para panteras

janeiro 4, 2009

Bem, inicialmente é preciso mencionar que Panthera diz respeito a um gênero da família dos Felidae. Este é o gênero de aproximadamente metade das espécies da sub-família dos Pantherinae; e caracteriza aqueles animais cuja modificação no osso hióide lhes confere a capacidade de rugir. A palavra pantera é usada, portanto, para designar os grandes felinos.

 

Devido à pujança da pantera, há tempos a caça deste gênero animal exerce um fascínio singular ao ser humano. Resulta daí o clássico problema caça-predador, objeto de estudo de inúmeros pesquisadores.

 

Minha primeira armadilha para a caça da pantera era baseada numa abordagem indireta para a solução do problema. Foi quando desenvolvi as funções matemáticas de forma ortogonais, linearmente independentes, cujas variáveis representavam o espaço e o tempo para que pudessem ser mapeados os movimentos da pantera. Pensava, naquela época, que a utilização das equações da cinemática e da dinâmica multi-corpos aplicadas aos mecanismos de locomoção animal permitiriam o rastreamento da pantera, valendo-se da crescente capacidade de processamento dos computadores.

 

Tenho de admitir a grande dificuldade enfrentada na definição clara das condições de contorno adequadas ao problema, dada à fluidez dos movimentos da pantera, e também às mudanças bruscas (não-linearidades intrínsecas) do seu comportamento. Cheguei até a implementar um modelo que tratava a caça da pantera como um problema acoplado fluido-estrutura; incluindo os efeitos de interação do fluxo de ar da floresta nos movimentos da pantera através das equações de Navier-Stokes. Mas seria significante a influência dos equinócios? E como considerar este dentre outros efeitos gravitacionais dos corpos celestes no modelo original para o rastreamento da pantera?

 

Com todas estas questões abertas decidi pela mudança de abordagem – excessivamente teórica – para uma experiência objetiva de caça à pantera. Foi resultado deste segundo intento o projeto e a construção de uma zarabatana; a qual disparava o projétil sonífero e dosado para o repouso da fera. Capturada a pantera, acolhi-a em uma jaula confortável, com abundância de água e alimento.

 

Para minha surpresa, observei o comportamento insone da presa após o recobrar dos sentidos (que não eram os seus). O corpo físico da pantera estava lá. Também o seu corpo vital. Mas no que pensava a fera? Quais os efeitos sobre o seu corpo mental? Com o passar do tempo, seu corpo supra-mental – aquele que promove a integração dos contextos emaranhados – sentia os limites obtusos impostos pela restrição da liberdade e a pantera apresentou significativa redução do seu chi. Soltei a pantera. E ficou provado que, neste caso, a observação afetara a medida.

 

Depois de muito tempo intui que a caça de “toda a pantera” deve garantir a integridade dos seus corpos físico, vital, mental, supra-mental e sutil. Por isso eu trabalhei com os materiais simples: estas pedras rolantes dos leitos de cachoeiras; algumas folhas dos arbustos rasteiros, sobre as quais repousavam o orvalho da manhã; gravetos de outras árvores frondosas e centenárias. Tudo isto temperado pelo banho da lua cheia; ao longo de sete noites consecutivas. Na manhã do dia seguinte à magia, fui até uma clareira da floresta; dispus os elementos em círculo, num arranjo intercalado; e me posicionei ao centro dele.

 

Com o sol a pino surgiu a pantera faminta. Desde então fixei os meus olhos nos olhos dela. Devagar ela veio entreolhando-me até que tocássemos as nossas frontes. Como resultado dos nossos aparelhos ópticos dispostos a uma distância cada vez menor; fitava os olhos da fera a se colapsarem num único olho ciclope. Dentro dele eu pude enxergar a mim mesmo: o caçador da pantera. Tal experiência remetia ao simbolismo do Yin-Yang.

 

Compreendi, naquele momento, que nossa natureza é Singular. Eu sou o caçador da pantera. E a pantera é o predador do homem. Ela só existe através da consciência do homem; ao passo que o homem resulta da experiência com a pantera; enquanto a realidade nada mais é senão o precipitar das nuvens de possibilidades infinitas desse encontro. Aquele que permite ao fluido realizar o ciclo da vida.

 

Enfim, como sou caçador (e não poeta), deixo para os artistas a demonstração de que armadilhas para panteras são marcos ao longo do caminho que leva ao encantamento.

 

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7 Respostas to “Armadilhas para panteras”

  1. DSV said

    Tenho tentado reproduzir o experimento com o felino gato, sem sucesso até o momento. Seria um problema resultante da domesticação da criatura?

    • jorgexerxes said

      Desde que a criatura tenha sido domesticada em consonância à sua natureza animal, não haveria por que inviabilizar o experimento ciclope. Tomastes o devido cuidado no preparo dos materiais sagrados?

  2. Pella said

    Viajandão hein, ôw ! ?
    Oque mais vc trouxe da cachoeira, além das pedrinhas rolantes?

  3. Jabba said

    Que nóia…. falta ou excesso de material etílico lubrificando os neurônios?

  4. Eduardo Muñoz said

    As nomenclatura matemática causa o desinteresse aos que não compreendem esse humor “científico”. Belíssimas entrelinhas. Gostei muito. Abraço!

  5. claudia said

    Algumas armadilhas tem sucesso, xarxes vive.

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