O chamado

dezembro 3, 2008

Morando tempestuosamente distante de tudo, o que mais interessava é que Pedro podia dedicar-se à arte de fazer aquilo que achava que devia e de não fazer aquilo que ele achava que não. As galinhas e os galos, que ficavam no cercado, ocupavam praticamente todo o seu dia. O ritual da criação. Passando por acordar cedo, preparar o café, coletar os ovos, ir à venda, alimentar o galinheiro e depois a ele próprio. Fumar o seu cigarro de palha e relaxar depois do almoço. Consertar algo que inevitavelmente o tempo encarregava de colocar fora do seu devido lugar. Ou o ritual da manutenção. E então Pedro, dentro de seu firme propósito de vir a ser o que ele mesmo é, continuava fazendo tudo aquilo que era necessário para que o seu dia fosse irremediavelmente igual ao anterior.

 

Escorrido dentro de um prato de Pedro certa vez um ovo, que era para ser frito, era o ovo de um cachorro. O estranhamento de Pedro só foi maior depois que outro chocou, para finalmente vir a ser o primeiro cachorro nascido de um ovo. E o ovo tinha pêlos. Pedro ficou intrigado e dividiu sua surpresa com o dono da venda. Ele disse para o outro parar de procurar o que já tinha achado, mas já era tarde demais. Os caras do bar riam de Pedro e dos cães nascidos de ovos que o seguiam até a venda; e serviam de prova viva para a descrença inevitável que o destino guardou para ele. As crianças e a mulher acreditavam nele, por que também viam os cãezinhos nascerem dos ovos. As crianças apoiavam fervorosamente as histórias de Pedro, mas também compartilhavam do riso inocente, junto a todos os outros que ouviam as falas de Pedro; como se tivessem de provar que é possível se divertir em qualquer situação. A mulher mostrava-se indiferente. Achava simplesmente que não tinha de se meter com isso.

 

E quando Pedro, o galinheiro e seus cachorros eram mais do que aquilo que a mulher achava que tinha de se meter, ela pegou as crianças e deu um pé na bunda de Pedro. Fugiu com Antonio, que era motorista do caminhão de leite da fazenda vizinha, para vir a ser o que sempre foi. E ninguém tinha de se meter com isso. É verdade que Pedro, por um tempo, foi mais feliz, e sabe-se lá por que. Fato é que os anos se passaram e nada mudou até aquela tarde de domingo.

 

Pedro foi à venda e pediu uma cerveja que ele dividiu com mais dois companheiros, que se esforçavam para escutar mais uma vez a história, e suportar o fedor dos cães rodeados de moscas, em troca de um copo de cerveja gelada. E para alimentar o que poderia vir a ser o copo seguinte, os amigos tinham de gargalhar com vontade. Para mostrar o que sempre foram. Mas daquela vez nenhum dos dois riu. E então os cães uivaram como nunca se viu, e na cabeça embriagada de Pedro, era como se gargalhassem eles enfim. Como se tivessem pregado a última grande peça. A piada da vida deles, nascidos de ovos com pêlos, como os empanados que Pedro pagava para os companheiros incrédulos, como o leite da mulher e das crianças indiferentes. Ninguém dava-se ao trabalho, e então Pedro teve a grande iluminação de que ele é quem deveria tomar a dianteira.

 

Pedro foi até a porta da venda e sentou-se no banco de onde ele podia ver toda a paisagem, que sempre foi a de domingo de sol, nas fazendas de lá. E ele já tinha visto aquilo por todos estes anos. Pedro passou as costas da mão direita sobre a testa suada de mais uma performance da arte do convencimento; e ele achava que finalmente tinha conseguido o que sempre quis. Havia sido, enfim, uma atuação perfeita e ninguém mais tinha de se meter com isso. Pedro pediu, de fora, uma dose de cana e acendeu o cigarro de palha; para relaxar ou simplesmente contemplar melhor a paisagem. Só então ele acenou aos cães com o braço direito estendido. Eles rosnaram, como se aguardassem o sinal em jejum desde que partiram suas cascas, para mascar os pescoços suculentos, tratados de cerveja, dos dois companheiros risonhos.

 

Os cães nunca foram ao enterro dos pinguços por que participaram antes de seus próprios funerais. Pedro encontra sempre com as crianças, que agora crescidas, já trabalham na fazenda vizinha. Pedro cuida das galinhas e dos galos do cercado. A mulher quis voltar, mas Pedro não quis saber. Ele não tinha nada que se meter de novo com isso.

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