O cegueta

dezembro 3, 2008

Naquele dia o mar recuava e investia sobre as pedras repetidas vezes. Espirrava mais água que de costume. Como uma analogia à confusão mental dele. As gaivotas voavam em câmera lenta. A expressão delas estava mais para o sarcasmo que para a compaixão.

 

Observando a flexibilidade do gato ele aprendeu sobre a liberdade. Com os cães ele entendeu o sentido do companheirismo e da obediência. E desde cedo herdou dos pássaros o desejo de voar.

 

Ele estava mal vestido, como sempre. O espelho, com o qual ele conversava, dizia que não. Mas ele era cego de não ver a diferença do homem do banco e daquele que o assalta. E de não entender o que via, ele era, de quebra, burro.

 

Quando trabalhava de pintor, e resolveu distribuir a tinta na parede com a forma do que pensava, recebeu férias sem fim como recompensa. E passou a tarde inteira olhando para o céu.

 

Seu desejo de voar não parecia ser menos acessível que arrumar outro emprego. Jogar bola, torcer para o Flamengo ou para o Corinthians era a mesma coisa. Como fazer exercício. Sua mulher ainda servia o arroz com feijão. Mas andar no ônibus lotado, com tantos carros nas ruas era sempre um risco.

 

E no túnel, para atravessar de um lado ao outro, quando o assaltante pediu dinheiro, ele disse que não tinha. Aquele ofereceu uma bala amarga e sem tempo para recusa. Ele derreteu-se em luz. Olhou em volta e as gaivotas sorriam. E então foi só bater as asas para longe.

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