O ano de 2020

dezembro 3, 2008

Foi no ano de 1949 que o escritor indiano de ascendência inglesa Eric Arthur Blair publicou sua notável novela futurista “Nineteen Eighty-Four”. Dizem que, apesar da publicação no ano de 1949, o título original é um trocadilho com relação ao ano de 1948, no qual a obra foi originalmente escrita. Se o pensamento é a semente do futuro, então a escrita é terra. O meio através do qual o pensamento se desenvolve. E nesta analogia o resultado pode ser, a princípio, qualquer uma das espécies botânicas. Completamos neste ano o dobro do tempo de Blair com relação às suas previsões futuristas e onde é que chegamos?

 

Não podemos dizer que ele estava de todo errado, mas parece que se esqueceu de levar em conta a capacidade de adaptação ao meio. Ao longo destes últimos setenta e dois anos o ser humano usou e abusou de sua criatividade (o pensamento é a semente do futuro) como forma de contornar, ou atenuar, a sina da proposição original. Pois, como reza a conjectura de Blair, o despotismo e o controle exacerbados remetem à falácia da civilização. Mas não pudemos suplantar as escrituras (a semente plantada e nutrida desenvolve-se em vegetal) e o grande irmão está entre nós.

 

Muita vez o que parece prolongar a ordem de coisas – ao contrário de um certo trecho árduo da jornada – está mais para o veneno que promove morte lenta, pelo sufocar dos pulmões numa atmosfera por demais putrefata. E neste caso seria mais efetivo o caminho reto – sem as sinuosidades e os meandros traçados pela raça humana – rumo ao colapso inevitável. Ao menos, nos pouparia de muitos dos detalhes, os quais agora sou obrigado a narrar.

 

A evolução da humanidade nestas duas primeiras décadas do terceiro milênio reduziu o abismo entre as classes sociais; posto que não existem mais os nichos sujeitos a condição de subsistência. Mas vivenciamos o nivelamento por baixo. A padronização cultural vigente deu-se graças ao desenvolvimento das poderosas ferramentas de comunicação em massa – a informação em tempo real comungada  entre os cidadãos. Todos são informados, minuto a minuto, sobre as ameaças à economia mundial. Dos acidentes causados, e sobre as penas impostas àqueles que ainda insistem no uso das drogas ilícitas, como o álcool e o tabaco. A padronização generalizada do comportamento. As últimas inovações dos itens de consumo. O objetivo dinâmico para uma vida fútil que oculta a degradação das relações sociais e o desvanecer da essência. Os aparatos de rastreamento e visualização que permitem a localização instantânea de qualquer objeto (ou pessoa) no qual tenha sido instalado um minúsculo chip. Em contrapartida, as moléstias psicológicas alastram-se de forma epidêmica, atingindo a grande maioria da população. Os trabalhadores e suas atividades repetitivas em jornadas inconcebíveis para suprirem as  demandas geradas pela sua própria cultura – ou total falta dela.

 

O crepúsculo do livre arbítrio é a rendição do ser humano a uma burlesca estrutura econômica e tecnocrata que foge ao seu controle.

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