Confissão ao genuflexório

dezembro 3, 2008

Sim, eu defenestrei o gato.

 

Conte-me o que se passou em detalhes, meu rapaz, para que eu possa avaliar a gravidade de teu pecado.

 

Eu e meu amigo Diogo nos encontramos num boteco fétido, próximo da rodoviária. Depois do trabalho. O encontro havia sido previamente acordado. O intuito era simplesmente aquele de jogar sinuca, tomar umas cervejas, uma ou outra cachacinha, jogar conversa fora e comer uns torresmos. Espairecer da correria do cotidiano – confraternizar. O ambiente estava animado com a presença de profissionais dos mais variados: pedreiros, eletricistas, cobradores de ônibus e alguns biscates. Cada um deles contando causos burlescos do dia a dia. O senhor, mesmo sendo padre, deve saber que muitos de nós – homens simples que ganham a vida nas ruas das grandes cidades – não passamos de uns bazofiadores e fesceninos.

 

Sim, sim, eu sei. Mas, por favor, prossiga meu rapaz.

 

Acontece que, naquela noite, ficamos entretidos um pouco mais que de costume naquela espelunca. Jogamos muita conversa fora. Ainda mais cachaça e cerveja pra dentro. Eu e meu amigo Diogo dividimos um apartamento simples num conjunto próximo daqui, no centro, com mais dois outros colegas; que também trabalham na mesma obra. Moramos no quarto andar; apartamento número quarenta e dois.

 

Sim, meu rapaz. Mas prossiga.

 

Quando voltávamos a pé; cambaleantes; da bodega para o prédio; já tarde da noite; um gato começou a nos seguir. Ele vinha miando. Dizem dos ébrios que estes têm lá as suas semelhanças com as crianças. A certa altura do caminho, paramos e brincamos com o bichano. Ele era manso. Continuamos a árdua jornada. O gato seguia atrás, miando.

 

Sim, mas e daí, o que houve?

 

Dado momento; defronte ao prédio; estávamos eu, Diogo e o gato. Discutíamos, então, o que faríamos do gato. Não os três; apenas eu e Diogo. O gato miando. Ele já tinha chegado até ali. E parecia faminto. Pensamos em alimentá-lo com leite. Havia leite na geladeira do apartamento. Mas era proibida a entrada de animais domésticos no prédio. Como disse, padre, o felino era dócil. Acomodou-se por debaixo da blusa, bem de frente a minha barriga, e entramos pelo saguão. Quando passamos pelo porteiro, ele disse: Boa noite, Jóve – com o português tosco; que o curso de madureza não deu conta de corrigir. O gato botou a cabeça pra fora da gola de minha blusa naquela hora. Imagino a surpresa dele; não a do gato; àquela do porteiro. Eu de cara cheia em cima; e a cara do gato, com os seus longos bigodes logo abaixo; à altura do meu pescoço. Jóve, não pode subir com o bichano. Eu só vou dar um pouco de leite pra ele e já trago pra baixo. O gato deu um miado faminto; acho que vinha confirmar a estória. Pode í então, Jóve. Eu, Diogo e o gato pegamos o elevador.

 

Até aí, sem pecado. Boa a intenção, meu rapaz.

 

Chegando no apartamento, o gato continuava manso. Pegamos leite e pusemos num prato fundo, destes de sopa. Ele tomou tudo. Tomou até mais um pouco de leite; de um segundo prato fundo de sopa. Feito isso, fui pegar o bichano pra levar para baixo. Parecia endiabrado. Já não miava mais. Botou as unhas de fora e não queria que ninguém tocasse as mãos nele. Numa de minhas tentativas, arranhou o meu antebraço esquerdo. Quatro linhas longas e paralelas delineando a ferida. O sangue brotando da pele. A cabeça girando de bêbado. Diogo abriu bem a janela. Peguei o gato de impulso, pelo meio do dorso e defenestrei com ele dali.

 

O gato, ele caiu de pé?

 

Ele deu um único grito longo, desses de gato mesmo, durante toda a descida pelos quatro andares abaixo. Caiu de pé; com um barulho oco no tórax. E saiu correndo dali. No outro dia, padre; desculpe-me pelo termo; puta dor de cabeça; eu nem me lembrava mais do ocorrido. De onde é que surgiram estes arranhões no antebraço?

 

Então, como é que está aqui se confessando?

 

É que fui topar com ele bem na saída do prédio pela manhã. Não com Diogo; com o gato. Ele estava lá na sarjeta; duro feito um pau. As patas retesadas pra frente; sangue seco escorrido do canto da boca.

 

Que azar, levou as sete vidas de uma vez!

 

Acontece, padre.

 

Sete Pai Nossos; sete Ave Marias; e vai com Deus, meu rapaz.

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Uma resposta to “Confissão ao genuflexório”

  1. JCO said

    Jorge, o teu livre-arbitrio o levou para o confessionario e, sob ponto de visto teologico, nao cometeu pecado mortal. Voce agiu inconscientemente em legitima defesa apos ter sido mordido pelo bichano. E tem mais, com umas na cabeca, a gente sempre esquece…

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