Antonio, o mudo

dezembro 3, 2008

A chuva cai lá fora, mas apesar de protegido por este teto, é como se chovesse dentro de minha cabeça – pensou Antonio. Anteontem mesmo, dia quente, um sol infernal lá fora, e ainda que em ambiente termicamente condicionado, foi como se fritassem os meus miolos. De certa forma, estou desprotegido das intempéries.

 

Quando questionado sobre a arte e a inovação da vida, penso sempre nos ovos que foram fritos, antes de virem a ser frangos. A vida tem destas surpresas. Assim, a arte de um ovo estrelado é o inverso da imaginação do galináceo, para o prazer da degustação do faminto.

 

A natureza entra com o equilíbrio, mas cada um tem de dar um pouco de si. Antonio era velho e gago. A idade ele adquiriu com o tempo. Em contrapartida, ganhou a experiência. Mas o gaguejar, não sabia de onde. Nenhum caso na família. Nenhum trauma de infância. Tudo aconteceu muito rápido, de repente começou a ter dificuldade em pronunciar as palavras. Os amigos se afastaram. Sentiu-se excluído do contexto social em que outrora vivera. Decidiu mudar de cidade. E desde então, passava-se por mudo. Já não tinha de dar satisfação pra ninguém.

 

Até que certo dia um playboy perguntou pra ele como chegar em determinado bar, da cidade pequena onde ele morava – ou se escondia. O puto devia ser de fora, e tinha mais dois amigos no Honda Civic zero quilômetro. Antonio não respondeu. Era parte de seu teatro do mudo. Antonio morava no sol. Mas quando chovia, ele ficava ensopado. No planeta Terra, trabalhava de açougueiro.

 

O playboy disse para Antonio que todo surdo é viado. Mas Antonio não era surdo; nem mudo. Ele era gago e açougueiro. Arrancou a peixeira e cortou a garganta do playboy filhinho de papai.

 

Coisa do destino: Antonio nunca mais gaguejou.

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2 Respostas to “Antonio, o mudo”

  1. zean said

    `e tinha mais dois amigos no Honda Civic zero quilômetro` que engracado. Gostei.

  2. Mazzi said

    Do gaguejar de sua alma, o silêncio lhe tomou conta, não como cura… como placebo. No estado sozinho de si mesmo já não havia espaço para a voz, nem para o pensar.
    E sem pensar, partiu as cordas vocais do Playboy, como em cesariana… fazendo se nascer sua nova voz

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