A felicidade é efêmera e o burro analfabeto

dezembro 3, 2008

O carro: Fim de tarde do dia quatro de outubro do ano de dois mil e oito. Luiz segue guiando o seu Uno Mille ELX verde oliva ao longo da SP-225 pelo trajeto que leva de Pirassununga à Aguaí. Este trecho, denominado Rodovia Deputado Cyro Albuquerque,  estende-se por pouco mais de 40 quilômetros numa pista única, esburacada e de mão dupla. Mas, em compensação ao péssimo estado de conservação, a estrada não tem pedágios e a natureza lhe foi bastante generosa. Os sítios e as fazendas compõem a paisagem. As árvores seguem paralelas às laterais de boa parte da via. E o relevo vem sendo moldado suavemente há dezenas de milhares de anos. A temperatura é agradável, depois do dia de nebulosidade variável. Luiz chegou a pegar chuva pela manhã. Na estrada. Mas agora o sol é vermelho-alaranjado. Ameno. Algumas nuvens prateadas no céu. Luiz dirige com os vidros todos abertos. Permite ao vento sua dinâmica turbulenta. O aparelho toca, em alto e bom som, um antigo cd gravado com músicas do Creedence, Janis Joplin e Jimi Hendrix. À altura da academia da força aérea Luiz observa um planador branco, alto no céu. O piloto picando; depois cabrando a aeronave.  Mais alguns minutos adiante, à direita, o grande lago com sua superfície plana – imenso espelho d’agua. Três garças sobrevoando baixo. O movimento lento das asas longas. As pernas esbeltas retesadas para trás. Pelos retrovisores do carro – qualquer um dos três – Luiz pode vislumbrar o sol; pouco antes do crepúsculo. Ele sente os seus sentidos se expandirem. O cheiro dela parece envolver o ambiente. Na cabeça dele as recordações da tarde de amor. Emoções indescritíveis depois de anos de espera. O coração pulsando vigoroso. Luiz lembra com carinho do abraço apertado de despedida – ao deixar a casa dela. A brisa suave abençoava aquela união. Pense num dia perfeito. Multiplique por mil.

 

O cão: Ele vem descendo pelo acostamento da esquerda; no sentido oposto ao Uno de Luiz. O rabo abanando sabe-se lá por que. A língua de fora.

 

O caminhão: Valdecyr pilota o seu Mercedes-Benz 1938-S de seis eixos. Toda a capacidade de carga. Valdecyr faz planos de dormir esta noite num posto em Bauru. Lá ele tem uns camaradas. Mas agora, fim de tarde, ele segue pela  Rodovia Deputado Cyro Albuquerque. Sentido Aguaí-Pirassununga. É na baixada que sua máquina desenvolve toda a velocidade necessária. Valdecyr vê de relance o cachorro que sai do acostamento; entra na pista oposta. E o Uno Mille que, numa manobra audaz, desvia do animal. Ele sai ileso. O rabo abanando. A língua de fora sabe-se lá por que.

 

O cão: Ele ouve o barulho metálico do impacto. Choque frontal do carro com o caminhão.

 

O caminhão: Valdecyr sofre umas poucas escoriações.  Esta noite ele não dormirá em Bauru.

 

O burro: Fim de tarde do dia onze de outubro do ano de dois mil e oito. Sétimo dia. Ele sobe pelo acostamento da direita. Chicote no lombo. Toda a capacidade de carga. Ele vê no canto, à direita, sobre a pedra, a cruz cuja base está coberta por uma coroa de flores amarelas. Chumbada à pedra, uma pequena placa de bronze. Epitáfio. O burro não sabe ler. Mas se soubesse: “Aqui jaz Luiz, o defunto mais feliz do mundo!”

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