A diferença entre um e o outro

dezembro 3, 2008

Antonio entrou na sala ligeiramente após o início da aula. Baixou a cabeça num sinal de respeito a Francisco, que fazia a preleção. Este consentiu. Aquele caminhou calado e sentou-se ao fundo. Antonio passou os olhos atentamente pela sala. Observou que a classe era composta por aproximadamente quarenta estudantes. Todos eles na faixa dos seus vinte e poucos anos. Mais ou menos uma dúzia de mulheres. Apenas um terço delas eram atraentes. Bem que podia ser numa faculdade de artes cênicas, pensou Antonio. Neste caso, muito provavelmente, ele não haveria de estar ali. Por que lá são mais resolvidos.

 

Francisco deve ter uns trinta anos, pensou Antonio. Mais novo do que ele imaginara. Antonio, já beirando os quarenta anos de idade, era certamente o mais velho da sala. Antonio piscou o olho direito três vezes rapidamente e na seqüência ergueu e baixou seu ombro esquerdo. Francisco falava sobre um tal de Mandelbrot. Um certo procedimento iterativo que era computado; e visualizado graficamente no plano complexo. A fronteira da figura resultante apresentava uma geometria peculiar e elaborada. Esta fronteira mantinha a mesma característica mesmo quando sujeita a sucessivas ampliações. E isto caracterizava a geometria como fractal, disse Francisco. Figuras coloridas que aludiam às formas variadas da natureza.

 

Fazia calor e isto era bom. Caso contrário, as mulheres da sala não estariam usando as roupas vaporosas que a idade lhes permitia. Antonio deliciava-se com isto – apesar de ter o seu universo restrito a umas quatro ou cinco beldades. Já fazia algum tempo que não passava o tempo sentado na carteira; recordava como outrora havia sido divertido. Mas o ventilador no fundo da sala; com suas pás ligeiramente desbalanceadas; o incomodavam pelo ruído cíclico. Antonio também receava que o mecanismo, em mal estado de conservação, se soltasse e viesse a atingi-lo (embora percebesse que os demais estudantes não davam a mínima para isso). Devia ser destes pequenos inconvenientes que fazem sentido apenas para as pessoas mais velhas – ou aos afrescalhados. Antonio piscou o olho direito três vezes rapidamente e na seqüência ergueu e baixou seu ombro esquerdo.

 

A maioria dos estudantes parecia bastante entretida com as explanações de Francisco. Ele deixou a sala de aula por alguns instantes e retornou trazendo o aparato: um pêndulo cujo centro de oscilação estava fixo num carrinho. Este, por sua vez, podia correr na horizontal; produzir um movimento de vai-e-vem com pequena amplitude; caso fosse acionado o motor elétrico. O pêndulo; com sua massa disposta abaixo e distante do centro; oscilava naturalmente em torno do equilíbrio estável; quando ligeiramente deslocado da posição vertical. Depois de algum tempo, parava. Francisco demonstrou isto em sala.

 

Antonio observava apenas um grupo de três alunos dispersos. Eles conversavam e gargalhavam baixo; no canto esquerdo do auditório. Sabe-se lá: discutiam algum caso da noite passada; um programa de tv; talvez estivessem mesmo ridicularizando alguém da sala. Antonio imaginou a si mesmo como foco das piadinhas. Ele piscou o olho direito três vezes rapidamente e na seqüência ergueu e baixou seu ombro esquerdo. Depois Francisco acionou o motor elétrico que tocava o carrinho. Causava o movimento cíclico horizontal do centro de oscilação. Conforme Francisco aumentava a rotação do motor, o comportamento do pêndulo era diferenciado. Até que, para uma determinada freqüência, o sistema oscilava com a massa acima do centro – pêndulo invertido. Este padrão de equilíbrio instável é a resposta do sistema à energia de excitação do motor, explicou Francisco.

 

Antonio com os olhos perdidos nos peitos de uma estudante com cabeleira longa e loura. Pensou nos motivos que o traziam ali. Será que fazia mesmo sentido? Tudo lhe parecia tão dentro dos padrões da normalidade. Quando observamos uma flor, se ela é fresca, o aspecto saudável, o perfume agradável, então o que há de errado com ela? E mesmo que haja algo, deixará de ser o que é por causa disso? Mas Antonio havia aprendido que não. Os padrões existem para serem observados; medidos; julgados. Muita vez se punha a questionar suas próprias razões. Nestes momentos, preferia assumir que estava apenas um pouco cansado, e que isto, por si só, era a causa da dúvida. Então (e só assim) esta se desvanecia. Antonio percebeu a aluna fitando-o. E ele aos peitos dela. Virou rápida a cabeça, piscou o olho direito três vezes rapidamente e na seqüência ergueu e baixou seu ombro esquerdo. Francisco desenvolveu no quadro as equações não-lineares do movimento para o pêndulo invertido. Depois comentou qualquer coisa sobre a linearização necessária para o controle; os pontos de bifurcação; os diagramas de trajetória; e o caos.

 

Então ele saiu da sala e voltou equilibrando com dificuldade uma bacia. Cheia d’água quase até à boca. Antonio aguçou o seu olhar. Quiçá, o que ele esteve esperando, durante todo este tempo! Estas experiências de pico o mantinham vivo; seguro de si; de suas convicções. (Afastava o fantasma de sua insegurança). Afinal, o homem é o predador dele mesmo. Ora fazemos papel da caça; ora estamos naquele do caçador – sábio e antigo o dito popular.

 

Francisco preparou um barco a partir de uma folha de papel em branco. Botou-o flutuando sobre a bacia. Ele disse que esta era a condição de equilíbrio estável da interação do fluido (a água) com a estrutura (o barco). Então se ajoelhou de frente à bacia. Começou a bater com as plantas das mãos violentamente na água. Para provar o seu desequilíbrio. Foi quando Antonio levantou-se, foi caminhando calmamente em direção à porta e baixou a cabeça num sinal de respeito a Francisco, que fazia a preleção. Este consentiu.

 

Antonio retornou à sala acompanhado de dois brutamontes vestidos com os seus uniformes brancos do manicômio. Eles puseram a camisa de força em Francisco. Levaram com ele dali. Antonio tinha quase quinze anos de experiência como psiquiatra. Freqüentava as sessões semanais de terapia. Mas não havia conseguido se livrar do cacoete.

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