Trabalho com a serra
Julho 5, 2009
Observou ainda debaixo a magnificência do acidente de relevo que se manifestava onipotente frente aos seus olhos. Logo estarei lá em cima – pensou Antonio. O monte é de um verde asfixiante. Algumas rochas que transparecem aos arbustos quebram esta constância, como o gelo no copo da bebida. Subiu calado e taciturno.
A repetição é de natureza triste e enfadonha. Já a liberdade, mesmo quando boceja aos gracejos de boa idéia, será sempre bem-vinda. Assim como a criatividade é irmã dos relâmpagos.
Antonio sentou-se sobre uma das três grandes rochas do cume. O fim de tarde era a quintessência do dia, o instante em que seria possível ao Sol beijar a Lua – pelo menos em sua cabeça simples de homem da terra. As mãos grossas que são também hábeis no manuseio do canivete. Ele picava o naco de fumo de rolo com a grande habilidade dos anos.
Geraldo subia triste a trilha que levava acima. A montanha era símbolo da árvore, que por sua vez era símbolo da resistência. Ela reinava soberba naquele topo. Mas naquele dia Geraldo trazia consigo a razão do impreciso. A duvida habitava o âmago daquele coração bruto de pedra, que não pertencia ao reino da natureza. Era aquilo que existia fora dele.
Antonio acochava a palha imprimindo-lhe certa maciez que não era sua. Pedia ao bom vento o sopro de sorte doce do crepúsculo. E preencheu a leda com todo o fumo enquanto Geraldo se achegava.
A vez de Jacinto era maquinada da energia dos omissos. Subia sem o devido respeito à aclividade como quem invade uma virgem ignorante da sua pureza. Arredio e bêbado das suas contas. Pastava noutros campos onde os loucos, os culpados e os indecentes se escondem da razão. Trazia consigo a ferramenta.
Antonio passava a lábia com a língua espessa dos sucos digestivos que moravam em sua boca. Era a ambição dos sentidos que fazia dele a cola dos pântanos. Sua arte lhe permitia ainda os amarrilhos nas duas extremidades com cintas de palha que dariam ao cigarro o formato final de um confeito – bala ou cande esfumegante.
Jorge subiu por fim. O sol quase na linha do horizonte. Eles botaram fogo na bagana e tocaram fumaça no mundo. Ela expandia abraçando todo o universo.
Jorge, Antonio, Geraldo e Jacinto eram amigos. Eles riram, mas sentiram o pesar daquele momento. O crepúsculo que nunca seria o mesmo.
Botaram a ferramenta numa perpendicular com o tronco e começaram num vai-e-vem frenético. A árvore resistiu o quanto pode.
Naquela noite a fogueira ao centro dos casebres foi mais vívida que todas as Estrelas.
O vazio do coração é a morte da árvore – dói a dor dos dias e das noites eternas.
Jorge,
Foi só uma árvore ou uma floresta?
JCO
JCO,
Isso é coisa da imaginação de cada um.
Mas foi grave o incidente, com certeza!
Jorge X